quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Eu ando me vestindo de horizontes
De incêndios sem trégua
De espaços intermitentes
De restos de ontem
Me vestindo com as cores da fome
De manhãs com cheiro de livro novo
Com a melancolia do inverno
E a insanidade da juventude

Eu ando me despindo das moradas cinzentas
E da certeza do espelho
Das mentiras que me satisfazem
Me despindo das regras expostas nos quadros de aviso
Das viagens que eu nunca farei
Das margens sem música
E das músicas feitas com a mesmice

Eu ando colhendo vazios
Espasmos
Silêncios
Feridas de repetição
Alegrias febris
Ilusões sem esperança
Verdades ardidas

Por fim
Eu tenho esperado por primaveras
Por sorte
Bagagens leves
Batalhas amenas
E lembranças que eu não queira esquecer

Rita Almeida

sábado, 23 de julho de 2016

Entre a nostalgia e o apocalipse: os aprisionamentos imaginários que nos fazem recusar o real presente no mundo virtual


Eu não sou afeita ao saudosismo. Não sou das que, nas conversas cotidianas, fica advogando do discurso do quanto “na minha época era melhor”. Até porque sempre penso que minha época é agora, pelo simples fato de que não posso viver em outra. Esse saudosismo impregnado nos discursos que vemos por aí também carrega um outro que me incomoda na mesma medida. Se o passado era muito melhor, ao futuro só cabe a catástrofe. Repetimos assim, a trajetória presente no drama bíblico: no passado temos o Paraíso, no futuro, o Apocalipse.

É muito comum, por exemplo, ouvir a minha geração dizer o quanto a própria infância foi melhor que a dos filhos. Obviamente que nada vai me demover da ideia de que minha infância regada a brincadeiras de rua – pique-esconde, futebol com trave de chinelo, fogueira na beira da calçada nas noites frias, captura de tanajuras em outubro, pera-uva-maçã-salada-mista, carrinho de rolemã morro abaixo, bicicleta sem freio e com garupa – foi insuperável, mas apenas porque foi a minha experiência de infância. Tenho certeza que a experiência dos meus filhos com a infância – já com a presença do computador, dos vídeo-games, da internet, do DVD – também será insuperável. Não ficará devendo nenhuma à minha.

Penso que essa sensação nostálgica de que o passado abriga uma vida melhor e mais feliz é tão somente uma prisão imaginária, que sempre carrega consigo uma outra: a de que ao futuro só cabe temer e esperar o pior.

Freud dizia que nossa existência é marcada pelo mal-estar, ou seja, nosso desarranjo com a existência é algo inevitável, já que é inerente à condição humana. Nossa relação com o mundo e, sobretudo com os outros, é profundamente marcada por essa dimensão trágica, não há como fugir disso. Sempre foi assim e sempre será assim. Isso quer dizer que o passado também abrigava seus mal-estares. Talvez seja apenas o distanciamento de tal passado que nos permita idealizá-lo a ponto de acha-lo mais colorido do que realmente deve ter sido. O futuro também terá seus próprios mal-estares, que ainda não conhecemos e talvez, por isso, nos assombrem tanto. Sobrevivemos aos mal-estares do passado então, podemos tranquilamente romantiza-los, o que não é possível fazer com mal-estares que nem mesmo conhecemos.

Mas minha proposta aqui é interrogar essas duas prisões imaginárias partido de um texto de Walter Moser - professor de literatura comparada da Universidade de Montreal - chamado Spaizet, que achei bastante potente. A proposta do texto é a de que estaríamos vivendo o tempo do Spatzeit; um momento de declínio, de perda de energia, de decadência, de saturação da Modernidade. Sabemos que a Modernidade desbanca o homem de suas certezas teológicas e é responsável por instaurar três grandes feridas narcísicas na humanidade: com Copérnico o homem não é mais o centro do universo, com Darwin o homem não é mais o centro da criação e com Freud o homem não é o senhor do seu próprio Eu. No entanto, se por um lado a Modernidade arrancou o homem do seu lugar de obra divina a ser resgatada pela salvação transcendente, por outro lado, prometeu a mesma salvação, desta vez por meio da ciência e das utopias de um Estado ideal.

Mas afinal essas promessas de salvação oferecidas pela Modernidade também não foram cumpridas. E diante da sensação de decadência dos ideais modernos vivemos entre duas possibilidades: uma nostálgica de que o passado era maravilhoso e promissor ou uma melancólica que pressente uma catástrofe iminente no futuro. Moser nos convida, entretanto, a tomar consciência de Spatzeit, ou seja, compreender a particularidade desse momento de esgotamento, de morte de uma era que levará ao surgimento de outra. Apenas tal consciência nos resgataria da paralisia trazida pelas prisões imaginárias no passado e futuro.

Creio que aqueles que não se prendem a essas duas prisões imaginárias conseguem fazer um uso mais potente e criativo do presente, e das possibilidades e instrumentos que este oferece. Isso nos faz mais abertos e preparados para as mudanças, as novidades, as inovações tecnológicas e científicas e também para as contingências que se apresentam. Mais preparados, inclusive, para enfrentar tais novidades de maneira ética e responsável.

Eu sou uma entusiasta das tecnologias digitais. Elas estão fundamentalmente presentes na minha vida e me abriram um mundo de possibilidades, especialmente no campo intelectual, que é o que me interessa. Eu sou uma devoradora de leitura e música. Já há muitos anos que eu desenvolvi um hábito de ler sobre tudo (qualquer assunto) e ouvir todos os tipos de música. Mesmo tendo meus estilos ou temas de preferencia eu sempre me abro à leitura de um tema ou ideia completamente nova ou até discordante da minha, e à escuta de músicas da maior diversidade possível. Acredito que este hábito mantém minha mente aberta e facilita minha produção intelectual. Antes da internet este era um ritual difícil de manter. Eu precisava recorrer às bibliotecas e ir para as lojas de venda de CD para escutar músicas no fone de ouvido, já que não podia adquirir todas as que gostaria de escutar. Hoje com a facilidade de acessar a internet do celular eu consigo fazer este ritual antes mesmo de me levantar da cama. Acordo cedo para fazer o que eu chamo de minha “ginástica intelectual”: acesso as redes sociais, leio sites de noticia, atualmente leio algo endereçado ao meu tema de doutorado e ouço pelo menos uma música que nunca tenha ouvido. Além da comodidade que a tecnologia me deu, a diversidade de possibilidades é de uma riqueza infinita. Me comove o tanto que posso alcançar em tão pouco tempo, com tanta facilidade e com um custo baixíssimo. Não consigo compreender quem não se encante com isso.

Entretanto, é muito comum, por exemplo, a tendência em simplesmente demonizar as tecnologias digitais (o computador, a internet, as redes sociais o celular e seus infinitos aplicativos). Nessa direção, qualquer discurso que venha servir de crítica ao modo de uso de tais instrumentos vem sempre na direção do “seria melhor se isso não existisse” ou “era melhor quando isso não existia”. Aprisionados na nostalgia do passado e temerosos diante da ideia do apocalipse, acreditamos que podemos criticar, criar linhas de fuga ou resistência negando ou fugindo da realidade que está posta.

Por isso, não defendo uma ideia que muito se propaga hoje de que a internet, as redes sociais e os celulares nos tornaram piores em nossas relações. É claro que tais espaços criaram novas formas de interação social e, portanto, novos mal-estares, mas são apenas mal-estares diferentes dos anteriores – nem melhores, nem piores. Se por um lado há uma queixa de estaríamos privilegiando as relações virtuais, por outro lado, este mesmo espaço virtual nos abriu possibilidades de relação e interação inimagináveis numa outra época. A mesma rede que pode nos afastar de muitos pode nos aproximar de muitos outros, ou seja, o que continua valendo é o nosso desejo de se aproximar ou se afastar de alguém.

Penso que as tecnologias e o mundo virtual são apenas instrumentos que ora vão nos causar facilidades e bem-estar, ora impedimentos e mal-estar, assim como tudo. Minha vida dentro da Matrix pode me aprisionar e embotar, mas também pode abrir um espaço de relação muito mais amplo e facilitado. No meu caso, por causa da importância da escrita e da criação deste blog, já tive a oportunidade de conhecer e interagir com blogueiros, jornalistas e escritores de diversas partes, sendo que alguns deles eu admirava na condição de fã. Tal espaço me rendeu amizades e interações riquíssimas que vieram até de outros países, viabilizou a publicação dos meus textos em outros espaços, me redeu entrevistas, parcerias, propostas de trabalho ou simplesmente bate-papos incríveis que jamais teriam sido possíveis sem a mediação das redes.

E sim! Sou uma adepta das redes sociais. Eu tenho amigos virtuais que nunca vi pessoalmente, mas que estão mais presentes na minha vida do que muitas pessoas que convivem diariamente comigo. Vejo gente que se acha na vanguarda por rejeitar as relações virtuais. Eu prefiro tirar delas proveito para ampliar meu mundo intelectual e afetivo, me manter informada, estimular minha capacidade crítica, ampliar minha possibilidade de escuta para outras verdades diferentes da minha. As redes sociais alimentam essa minha sede de ver e pensar sobre o mundo e escrever. Estou sempre aberta a conhecer pessoas novas, ideias novas, músicas novas, culturas novas e descobri que, já que não posso sair viajando pelo mundo sempre que quiser, posso fazer isso do meu PC ou do meu celular. Como isso pode ser ruim?

É claro que o universo virtual já me rendeu muitos mal-estares, desentendidos, desencontros, dúvidas morais e/ou éticas, mas eles são apenas um pouco diferentes daqueles que eu enfrento no chamado mundo real. Talvez a novidade torne tais mal-estares mais difíceis de manejar e enfrentar, mas uma coisa é fato, só aprenderemos a lidar bem com tais mal-estares nos colocando corajosamente diante deles, nunca rejeitando-os ou negando-os.

Trazendo novamente a psicanálise e o professor Moser para a nossa conversa, aceitar Spatzeit é aceitar a morte: nossa limitação, nossa castração. Aceitar a morte de modos de ser e de pensar que, por algum tempo, nos deram algumas certezas e nos mantiveram confortáveis. Aceitar o Spatzeit é aceitar o real, evitando ficar aprisionado nas idealizações, tanto do passado quanto do futuro. Nesse sentido, o universo virtual já é um espaço completamente real para o mundo de hoje. Assumir esse real pode ser também ressignificá-lo, reinventá-lo, revolucioná-lo ou simplesmente utilizá-lo em favor de novos modos de estar no mundo. Mas só podemos fazê-lo ocupando tal espaço. Não é possível revolucionar a Matrix estando apenas do lado de fora dela, é necessário estar dentro e fora, como bem relata o filme.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Madrugada

A madrugada, quando engolida por silêncios
É a morada dos fantasmas
E a dispensa onde guardamos nossos medos
É lá onde o tempo corre demasiadamente lento
E até as minúsculas formigas são capazes de fazer barulho

Pra quem dorme, o sono alimenta
Para os insones, a fome aperta
Fome de entender
Fome de lembrar
Fome de esquecer

A madrugada silenciosa é para os fortes
Ou para os poetas
As palavras chegam sem que a gente precise abrir a janela
Ou acender a luz

Na madrugada,
As dores ganham o dobro do peso
E a angústia - que também não dorme
Nos atravessa com sua lança

É na madrugada que entendemos
Que a vida, afinal, é uma experiência solitária
Pois os que nos acompanham nessa jornada
Também precisam enfrentar suas próprias madrugadas
Do seu próprio modo

Na madrugada,
É cada um com seu silêncio particular
E cada um com seu barulho peculiar

Só o amor nos salva da barbárie

Bem... eu não me considero uma pessoa religiosa, mas isso não me impede de acreditar que só o amor nos salva, não em direção um outro mundo, nos salva da barbárie deste mundo mesmo, e que pode estar logo ali adiante.

Nesta sexta-feira acredito que muitos devam estar mobilizados pela causa da paixão de Cristo, portanto, quero aproveitar para sugerir uma coisa que acho importante nesses tempos de redes sociais. Cuidado ao divulgarem fotos e relatos sobre pessoas que supostamente cometeram algum crime. Por mais que a história pareça verossímil e que você pense que está fazendo um bem alertando as pessoas ou ajudando na busca e condenação de um criminoso, esta não é uma atitude sensata.

Primeiramente nunca sabemos se tais postagens condizem com a verdade e não sabemos quem iniciou a corrente e seus motivos. Toda história tem inúmeras interpretações e a interpretação que você vê nesses casos conta apenas uma versão da história. E pode até mesmo ser uma invenção de alguém para denegrir ou prejudicar uma pessoa inocente. Já pensaram nisso?

E ainda que seja tudo verdade, precisamos estar avisados que o tribunal das Redes e do Whatsaap é cruel e desumano. Qualquer pessoa que tenha cometido um crime, por pior que ele seja, tem direito a julgamento digno, punição proporcional, além de amplo direito de defesa. Já o tribunal das Redes é assustador. Acusa, julga, condena e pune num único post. É irracional e passional. Portanto, o máximo que você pode conseguir divulgando coisas deste tipo é incitar um linchamento: moral ou físico, que pode acontecer inclusive com uma pessoa que não tem nada a ver com a história, só por parecer com o acusado (já vimos histórias deste tipo por aqui).

Pela tradição Cristã, sábado de aleluia é dia de linchar o Judas. Um Judas que reeditamos todos os anos para expiar nosso ódio, nosso desejo de vingança e nossa sede de fazer justiça com as próprias mãos. Mas não esqueçamos que na sexta-feira da paixão o que Jesus sofreu foi também um linchamento. Seus supostos crimes foram colocados à público na praça e os cidadãos de bem da ocasião decidiram que ele era culpado e deveria ser humilhado e espancado até a morte.

No sábado linchamos Judas tentando colocar nele a culpa pelo linchamento de Jesus Cristo, mas na verdade, essa é apenas uma tentativa de negar a verdade: Jesus foi morto pelo coletivo dos cidadãos de bem de seu tempo, que decidiram pela pressa e pela passionalidade de achar um culpado a ser condenado.

Passaram-se mais de 2000 anos e ainda não aprendemos a lição. Ainda achamos que faremos a diferença nesse mundo jejuando na quaresma, comendo peixe na sexta-feira santa e indo à Igreja no domingo de Páscoa.

Como disse, não sou religiosa, mas o que entendi sobre o legado de Jesus Cristo resume-se em uma aforia simples: "ame o teu próximo". E se ele precisou passar por tanta coisa para deixar apenas essa singela mensagem é porque se trata de uma missão extremamente difícil. Sim, é muito difícil amar o próximo, quase impossível, daí o valor e a nobreza deste ato.

Par - tido

Em tempos de criminalização e judicialização da política, talvez seja importante resgatar o sentido da palavra Partido. Partido é o que não é inteiro, assim sendo, um Partido não tem como propósito unificar ou reunir todas as ideias, interesses e propostas. Cada partido representa apenas uma parte dos interesses que transitam na política, e é assim que deve ser. Nesse sentido, essa coisa de "meu Partido é o Brasil" ou "meu Partido é a constituição" é um discurso vazio, que só serve para alienar e enganar, pois supõe que não existam diferentes interesses e posições numa Nação. Esse discurso que se pretende unificado não cabe numa democracia, porque supõe que exista uma forma unificada de pensar e conseqüentemente, uma unica forma de agir.

Acreditar que exista uma unica forma de pensar e agir é fascismo. A riqueza da democracia é exatamente essa: vários Partidos, que são várias partes com suas diferentes concepções e interesses tentando conversar e negociar. Tais negociações podem chegar ou não a um consenso, e não há nenhum problema quando não se chega a um, afinal, as vezes os interesses em jogo são antagônicos. Mas a política é a arte de manter o diálogo aberto mesmo quando as partes são muito diferentes.

Portanto, a ideia de que nós devêssemos nos juntar numa única bandeira para conduzir a crise da política atual parece muito bonita e palatável, mas é pura bobagem. A mesma bobagem que é uma política sustentada na criação de um inimigo comum. Tenho escutado: "não sou de nenhum partido, só quero acabar com a corrupção". Ter a corrupção como inimigo único também é um discurso totalmente vazio para a politica. Até porque, você conhece alguém a favor da corrupção? Então, o desafio que temos pela frente é grande e difícil e se prezamos pela nossa democracia, precisamos aprender que não haverá um discurso único nesse caminho, mas sim discursos partidos, incompletos e imperfeitos. Da muito mais trabalho negociar com essas diferenças, mas é o único modo democrático de faze-lo.

As vezes, também sonhamos com uma receita pronta, um super-herói (Moro, Joaquim Barbosa, Chapolin Colorado), um salvador ( Lula, Aécio, Bolsonaro, Jesus) ou a intervenção de um outro de fora (militar , alienígena, dos EUA) que resolva tudo pra nós. Isso deveria ser uma solução pensada só pelas crianças, a vida adulta requer de nós trabalho e coragem para construir nossas próprias saídas.

Enfim, nesse momento que vive o Brasil é urgente e fundamental tomar partido. Sem esquecer que qualquer partido que você tome, este sera o reflexo de apenas uma parte do contexto, será apenas uma parte da verdade. Melhor dizendo, nenhum Partido está com todas as verdades, está apenas com a verdade que você escolheu defender. Outra coisa importante é entender que aquele que possui interesses diferentes do seu tomará outro tipo de partido e se tornará seu interlocutor político e não seu inimigo.

Vamos ao trabalho, então! E que cada um tome sua parte!