sábado, 7 de abril de 2012

Drogas e situação de rua: o “Consultório de Rua” como estratégia.

Por: Rita de Cássia Araújo Almeida

Trabalhadora da Rede de Saúde Mental - SUS

Esta semana tive a grata satisfação de participar de uma reunião entre o Departamento de Saúde Mental de Juiz de Fora e a Secretaria de Assistência Social, cujo objetivo era apresentar o “Consultório de Rua”: modalidade de intervenção implantada no município há cerca de dois meses, com o propósito de ofertar ações de proteção, promoção, cuidado e prevenção em saúde para população em situação de rua.

O “Consultório de Rua” é uma experiência que surgiu no final da década de 90, em Salvador, com a finalidade de atender a pessoas em situação de risco e vulnerabilidade social, agravados pelo do uso ou dependência de drogas. A ideia é a de um consultório a céu aberto, itinerante, provido de equipe multiprofissional, que ofereça atendimento no contexto de vida do sujeito em situação de rua, promovendo acessibilidade a serviços de saúde e assistência, garantindo cidadania e exercício de direitos, e resgatando os laços familiares, comunitários e/ou sociais. Os princípios que norteiam tal estratégia são os mesmos do SUS – universalidade, equidade e integralidade – e outros não menos importantes: respeito ao modo de vida do sujeito, respeito aos direitos humanos e a utilização da estratégia de redução de danos.

Atender a demanda por cuidados a pessoas com problemas relacionados ao uso de drogas tem sido um grande desafio para as políticas públicas nos últimos tempos, especialmente nos casos onde estão associados a eles: situação de rua, miséria social, exclusão, abandono e marginalidade, invariavelmente resultando naquilo que têm se chamado genericamente de “cracolândia”. Muitos municípios estão optando por estratégias meramente higienistas para intervir nesses espaços, sendo que elas podem ser de dois tipos: as que espantam e as que recolhem. As que espantam, vão apenas fazer com que essas pessoas migrem para outro lugar, obviamente que para um lugar semelhante ao anterior. As que recolhem (compulsoriamente ou não) também acreditam que o problema é solucionado quando o levamos para outro local, só que dessa vez apostam em instituições de amparo social ou clínicas de recuperação.

Os resultados dessas estratégias higienistas são semelhantes àqueles que conseguimos ao limpar a sala de estar varrendo a sujeira pra debaixo do tapete, ou seja, maquiagem provisória. As intervenções baseadas no recolhimento se sustentam num princípio clássico do tratamento em saúde: é preciso isolar para tratar. É claro que tal princípio é bem adequado para tratar daquelas doenças onde a contaminação ou o contágio façam parte dos sintomas. Mas em se tratando de uma "doença" onde o isolamento e o prejuízo social já estão instalados, sendo tão nocivos quanto a própria doença, será que o “isolar para tratar” é tão eficaz?

Mais uma vez temos sido tentados a criar novos muros, muros que separem, delimitem e isolem, a primeira vista em nome do tratamento, mas também em nome daquilo que tememos, do que não compreendemos, não aceitamos e não sabemos como lidar. Fizemos assim com os doentes mentais, criamos muros que nos separavam deles, para depois de muitas décadas entendermos que, na verdade, deveríamos ter criado pontes. E afinal, concluímos que as pontes têm sido infinitamente mais eficazes para tratar que os muros. No caso das drogas, seria uma pena gastarmos tempo, material humano e recursos públicos com os muros que já sabemos, mais cedo ou mais tarde, demonstrarão seu fracasso (na verdade, já estão demonstrando).

Os “Consultórios de Rua”, por sua vez, apostam nas pontes. Pontes que acolhem ao invés de recolher e aproximam ao invés de espantar. Imagino que em termos arquitetônicos deva ser muito mais difícil construir pontes do que muros, assim como é muito mais difícil aproximar do que espantar. Acolher também é bem mais trabalhoso que recolher, porque leva em conta o querer de quem está sendo acolhido, ao passo que o recolher só leva em conta o querer de quem recolhe.

Mas, enfim, se estamos procurando as estratégias mais eficientes, estruturadas e duradouras não podemos recuar diante das dificuldades e fico feliz que meu município não tenha recuado. E espero, ansiosamente, que muito mais pontes como essa sejam construídas.

25 comentários:

  1. Parabéns pelo artigo, Rita. Claro e convincente. Vou reproduzir.
    Abs
    Edmar

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  2. Parabéns pelo artigo, Rita. Claro e convincente. Vou reproduzir.
    Abs
    Edmar

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  3. Parabéns pelo artigo, Rita. Claro e convincente. Vou reproduzir.
    Abs
    Edmar

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  4. Parabéns pelo artigo, Rita. Claro e convincente. Vou reproduzir.
    Abs
    Edmar

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  5. Rita, lindo o texto, parabéns pela delicadeza e contundência no trato da questão.
    Acessei o teu texto a partir de um post do Júlio Nicodemos no Facebook. Querido,
    grato tab a vc por me viabilizar este contato.
    Beijos.
    Lindomar Expedito S. Darós
    Lindodarós

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  6. Muito bom, Rita. Discuti sobre esta estratégia esta semana com meus alunos. Vou passar para eles.
    Bjs.
    Teresa Cristina.

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  7. obrigada Lindomar, Edmar e Teresa. sejam sempre bem vindos a este espaço

    abs

    Rita

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  8. Rita,

    Fiquei muito feliz com as suas pontuações, não só por comungar com as mesmas, mas como integrante do Consultório de Rua de nosso Município. Acho de uma importância ímpar tais esclarecimentos e, principalmente, o fortalecimento desta rede para que as pontes sejam construídas e sirvam, verdadeiramente, de caminhos e não apenas de enfeites. Caminhemos, portanto.

    Abraços,

    Tatiana Tavares.

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  9. Rita, muito boa sua defesa do cuidado em liberdade. Vou reproduzir também. Essa discussão da relação com os usuários de drogas precisa tomar um outro rumo no Rio de Janeiro.
    Parabéns pelo texto.
    Hugo Fagundes

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  10. Rita
    Acredito que a vialbilidade desse projeto, do ponto de vista técnico, seja muito complicado, levando em conta que a demanda reprimida nem sempre se vê como demanda.
    Faço votos de que isso seja levado a aoutros municipio como alternativa de visibilidade em saúde pública.
    Parabens pela ousadia
    Rogério

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  11. Muito bom Rita ler seu relato sobre as implementações no município!!
    O acolhimento e tratamento destes sujeitos portadores de sofrimento é a melhor estratégia!!
    Um grande bjo!! Janaína Nogueira.

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  12. Muito bom, tanto o trabalho, como o texto. Conheço o trabalho de Uberlãndia, que está funcionando há mais ou menos um ano e está indo mto bem.
    Abraços

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  13. Muito bom, tanto o trabalho, como o texto.
    Conheço o trabalho de Uberlãndia, que está funcionando há mais ou menos um ano e está indo mto bem.
    Abraços

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  14. Obrigada pelos comentários Lucia, Tatiana, Rogerio, Janaina e Hugo

    sejam sempre bem vindo a esse espaço

    um abraço

    Rita

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  15. Rita. Sou amiga da Tatiana Ramminger e li o teu artigo através do perfil dela. Adorei!
    Aqui em Porto estamos na luta pra estabelecer algumas "pontes" ou "portas de saída da rua", como definiu Jorge Broide, mas vc sabe o quanto as coisas são lentas, não é?
    Por isso acho de suma importancia artigos como esse teu! Divulga, esclarece, desmistifica, tudo de um jeito poético e ao mesmo tempo acessível a qualquer cidadão.
    Se quiser me adicionar, adoraria receber mais artigos e discussões sobre este assunto, que é uma das coisas que mais me sinto compromissada nesse momento!
    Parabéns!
    Grande ab
    Abraço.

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  16. OI amiga da Tatiana Ramminger, obrigada pelo comentário. Terei o maior prazer em adicioná-la mas vc esqueceu de me dizer seu nome...rsrsrs
    um abraço

    Rita

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  17. Gostei bastante, texto objetivo simples e coerente. A abordagem ainda é muito sub-explorada em nosso meio. Sou Psiquiatra da infância e Adolescência, trabalhei com dependência química em Juazeiro-BA até recentemente, voltei pra Maceió por questões de saúde mas aos poucos vou voltando pro batente. É sempre bom ler comentários sobre novas experiências no lidar com um problema que, vai-e-volta, é muitas vezes frustrante para o profissional que sobre ele se lança.

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  18. Isolar estas pessoas é o método, é o que se vem fazendo ao longo da história, e, romper com este paradigma parece ser mesmo o grande desafio. Iniciativas como esta, do consultório de rua, podem sim contribuir com o rompimento desta cultura. É realmente cômodo e fácil isolar, proibir, é sempre uma atitude autoritária que parte de pessoas estranhas a situação, mas que pensam que sabem como resolve las, difícil é construir em conjunto buscando nas demandas as soluções para as demandas, mas com certeza o resultado será outro, pois atenderá as vontades dos sujeitos.

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  19. Tem toda razão...chega de isolar para tratar, dessa mesma lógica manicomial. Que venham as pontes!

    Bjos
    Luís

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  20. É preciso não temer o outro para que tais pontes sejam construídas. Muitas vezes há a intenção, os recursos econômicos e faltam os de caráter humano.
    Parabéns ao seu povo que já atingiu o patamar de acolher o outro,aceitando-o como é sem espantá-lo, e à lisura do seu artigo.
    abraços fraternos.

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  21. Olá Rita. Gostei mt do artigo. Tenho interesse no tema, estou na coordenação do Programa de Saúde Mental de Resende - RJ e implantamos o Consultório de Rua ano passado, como venho de uma trajetória de capsad optei por escrever sobre a experiência de Resende na conclusão do curso de especialização em saúde mental-IBUP. Gostaria de trocar idéias e materiais sobre o tema. Meu e-mail angelamonteiro@terra.com.br

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  22. Obrigada Tadeu, Claudio, Luiz, Soninha e Angela. Valeu pelos comentários, sejam sempre bem vindos...Angela, meu email é rcaalmeida@ig.com.br

    abs

    Rita

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  23. Claudio dos Santos1 de maio de 2012 05:33

    Aos trabalhadores um breve comentário.
    Hoje é o dia o trabalhador, é o dia do médico e do enfermeiro, é o dia do engenheiro e do pedreiro, do empresário e seu funcionário, é o dia de todos aqueles que de fato produzem com seus esforço as riquezas desta sociedade.
    Hoje é dia daquele que pega a pedra bruta e transforma em um lindo diamante, mesmo que este venha a embelezar quem nunca trabalhou. É dia daquele que pega o paralelepípedo lasca ele e pavimenta as ruas da cidade, mesmo que por ali passe quem nunca trabalhou.
    Hoje é, então, o dia do trabalhador mesmo que o ideário positivista venha ao longo do tempo tentando transforma lo no dia do trabalho. Comemoremos nós que TRABALHAMOS.
    “ Para Marx; o trabalho é o fundamento ontológico-social do ser social; é ele que permite o desenvolvimento de mediações que instituem a diferencialidade do ser social em fase de outros seres da natureza. As mediações, capacidades essenciais postas em movimento através de sua atividade vital, não são dadas a ele; são conquistadas no processo histórico de sua auto construção pelo trabalho. São elas: a sociabilidade, a consciência, a universalidade, a liberdade”. (Ética e serviço social, Maria Lucia S. Barroco.)

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  24. Lindo texto! Comecei a trabalhar num Consultório na Rua em João Pessoa há quase um mês. Está se mostrando um espaço maravilhoso e cheio de novas perspectivas. A atenção contra as práticas e visões higienistas e fragmentadoras, assim como a intersetorialidade, são realmente fundamentais. Valeu compartilhar sua experiência!
    :)

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  25. Olá, faço parte do Consultório de Rua de Teresina, PI. Sou redutora de danos, e a parabenizo pela inciativa em relação ao artigo. Divulgarei na página do nosso Consultório de Rua no facebook, acho sempre bom compartilhar essas informações com o público em geral. Abraços.
    Talita Kamache.

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