sexta-feira, 28 de dezembro de 2012
A ditadura da felicidade
Por Rita de Cássia de A. Almeida
Psicóloga/psicanalista da Rede de Saúde Mental do SUS
Há mais de 15 anos que o meu trabalho cotidiano tem sido - para resumir em algumas poucas palavras - escutar o sofrimento alheio e, por opção, atuando na saúde pública. E durante esse percurso profissional testemunhei uma mudança muito interessante na minha prática clínica. Sofremos por diversos motivos e de diferentes formas e, pela minha experiência, o motivo do sofrimento não mudou muito, no entanto, a demanda que as pessoas tem feito quando estão em sofrimento mudou significativamente.
Estudos da psicanálise atual têm tratado nossa época como a era do direito ao gozo. Ou seja, vivemos em uma época que não trata a felicidade como algo a ser construído ou conquistado, mas sim como um direito. Numa caricatura, diríamos que toda criança que nasce, especialmente no ocidente capitalista, recebe em sua certidão de nascimento um carimbo que outorga a ela o direito de ser feliz, de gozar sem restrições, sem qualquer porém.
Me lembrei agora dos versos de uma música do saudoso Tim Maia.
“Essa tal felicidade, hei de encontrar.
Mesmo se eu tiver que aguardar.
Se eu tiver que esperar.”
Nos tempos do Tim Maia a felicidade ainda era uma contingência, quase uma utopia, uma busca na qual poderíamos ou não ter sucesso. Mas hoje a coisa é bem diferente, como a felicidade passou a ser um direito de todos, acabou alcançando também o patamar de uma certa obrigação do sujeito. É como se você tivesse ganhado o direito de, sem nenhum ônus, acessar mais 90 canais de TV e dissesse não. As pessoas te perguntariam: - Como assim, você não quer mais 90 canais de TV? Entendo que essa seja a grande pergunta que permeia o discurso ocidental capitalista: - Como assim, você não é feliz?
Esse modo de entender a felicidade implicou numa mudança radical, como eu disse, no tipo de demanda que as pessoas fazem a nós, trabalhadores da saúde mental. Para os que não estão familiarizados com o fluxo de funcionamento da atenção à saúde do SUS, preciso fazer um parêntese para que compreendam melhor o que vou dizer adiante.
O sistema funciona, ou pelo menos deve funcionar, em rede. A atenção primária é a extremidade da rede mais próxima do usuário, portanto a primeira que ele procura quando apresenta qualquer problema de saúde. A atenção primária - o posto de saúde, unidade de saúde ou estratégia de saúde da família – deve atender e oferecer resolutividade para a maior parte dos casos, cerca de 80% deles. O desafio da atenção primária é não trabalhar em cima das especialidades médicas, mas, intervir no sujeito como um todo, tendo como diretriz a promoção e a prevenção em saúde. Entretanto, a atenção primária pode, em casos mais específicos nos quais a intervenção do chamado especialista seja imprescindível, acionar outros parceiros da rede que possam oferecer suporte e parceria. Os CAPS, modalidade de serviço que trabalho, compõem exatamente este trançado da rede, eles oferecem uma escuta especializada no campo da saúde mental. Sendo assim, quase sempre recebemos encaminhamentos e demandas dos demais parceiros da rede, em especial da atenção primária, apesar de também recebermos demanda espontânea.
Ao chegar no CAPS o sujeito passará por um dispositivo chamado: acolhimento. Como o próprio nome diz, este é o momento que o sujeito será acolhido em sua demanda, será escutado com cuidado por um ou mais profissionais do serviço, não necessariamente o médico, para que se possa, a partir de então, construir uma estratégia de intervenção. E o que temos notado nesses acolhimentos é que as pessoas simplesmente não suportam ficarem infelizes, tristes, frustradas ou enlutadas (e também não suportam ver outras pessoas nesse estado). É como se elas agregassem um plus ao próprio sofrimento, sofrem pelo que as fazem sofrer e sofrem porque estão sofrendo, como se não tivessem mais o direito de ficarem infelizes.
Somos procurados para fazer intervenção de saúde mental de alguém que está vivendo uma situação de luto ou perda, por exemplo, e quer ser medicado porque está chorando muito. Como assim? Então o sujeito perdeu um ente amado e precisa estar de bom humor para ir ao cinema depois do enterro?
Mães nos procuram com suas filhas adolescentes por chorarem trancadas no quarto depois de uma desilusão amorosa. Então a famosa “dor de cotovelo” tornou-se um grande mal a ser tratado com antidepressivos?
Certa vez, recebemos o encaminhamento de uma senhora via atenção primária, cuja queixa era insônia persistente e delírios persecutórios. Avaliando o caso com cuidado no acolhimento, entendemos que a tal senhora não dormia porque estava sendo ameaçada pelo marido há meses (ameaça real, não delírio de perseguição). Ele dizia que jogaria água fervente no seu ouvido enquanto ela estivesse dormindo. Alguém, por favor, me diga: como essa mulher poderia dormir? Não dormir, nesse caso, é sinal de saúde e não de doença.
Esses são alguns dos muitos exemplos que têm nos convocado a fazer intervenções muito peculiares, diferentes daquelas que fazíamos há alguns anos atrás. Se, num passado não muito distante, grande parte da nossa intervenção era feita no sentido de autorizar as pessoas a serem felizes, hoje, temos precisado lançar mão de intervenções que autorizem as pessoas a serem infelizes, a chorarem, a sofrerem por um fracasso, uma perda, a mergulharem numa boa “dor de cotovelo”, sem que com isso precisem ser medicadas ou enquadradas em algum diagnóstico de transtorno mental.
Muitas vezes precisamos dizer a essas pessoas que não precisam se envergonhar de chorar a morte de alguém. Que é normal não dormirmos quando estamos endividados, desempregados ou sendo ameaçados. Invariavelmente precisamos lembrar às mães que elas também já choraram uma dor de amor e que sobreviveram. Precisamos dizer que, num acesso de raiva, não é uma insanidade irreparável quebrar algumas louças e a coleção de CDs. Às vezes precisamos dizer que (quase) todo mundo já pensou em suicídio pelo menos uma vez na vida, e que a imensa maioria nunca chegou a concretizá-lo.
Por isso, a bandeira que levanto aqui é a seguinte: Se a felicidade é um direito a infelicidade é uma necessidade. Um brinde a infelicidade nossa de cada dia! Porque infelicidade não é doença, é parte da nossa condição existencial, sem ela perdemos pelo menos a metade da nossa humanidade.
Então, que todos tenham um 2013 feliz, mas quando a infelicidade vier, que possamos mergulhar nela em paz...sem pudor.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
Sobrenome: “Guarani Kaiowa”
"O que move um brasileiro urbano, não índio, a agregar “guarani kaiowa” ao seu nome no Twitter e no Facebook?"
Este texto é um depoimento que escrevi à convite de Eliane Brum, jornalista da Revista Época. Para construir sua coluna semanal ela solicitou que algumas pessoas respondessem as perguntas abaixo. Parte da minha resposta - que você lê agora na íntegra - foi publicada no artigo: Sobrenome: “Guarani Kaiowa”
Por que você acrescentou "guarani kaiowá" ao seu nome no twitter (e também feicibuqui?)? O que significa para um não índio como você dizer "SOU guarani kaiowá"/ se identificar como guarani kaiowá?
Decidi mudar meu nome virtual a partir de um convite de mobilização no feicebuque, e por meio do qual tomei conhecimento da carta da comunidade guarani-kaiowa enviada ao governo e a justiça do Brasil. O que mais me comoveu na carta foi quando ela diz: “Decretem nossa morte coletiva, enterrem-nos aqui” Sou uma profissional da saúde mental do SUS (psicóloga/psicanalista), lido todos os dias com o sofrimento das pessoas e não é incomum termos que lidar com essa radicalidade que é o desejo ou o ato de uma pessoa de por fim à própria vida. E isso sempre acontece quando a pessoa não enxerga nenhuma saída, nenhum caminho possível para sair do seu tormento. Quando a única saída pensada pelo sujeito é a morte é porque o seu sofrimento é muito, muito intenso, o que torna a nossa intervenção profissional extremamente difícil e delicada, além de nos colocar diante de um enorme sentimento de impotência e desimportância. Então, por me sentir sensibilizada com o sofrimento daquelas pessoas, por pensar que como profissional da saúde mental não poderia me silenciar, decidi participar da mobilização que era possível para mim naquele momento, no caso: mudar meu sobrenome. A partir desse ato, comecei a me interessar mais pelo tema, discutir e provocar o tema na minha rede de contatos da maneira que podia e, ainda, compartilhar minhas impressões também fora do campo virtual.
Algumas pessoas criticam as relações virtuais porque pensam nelas como uma espécie de fumaça. Como se este tipo de experiência não tocasse nosso corpo, nossa vida, nosso cotidiano, mas que bobagem....claro que tocam! No ambiente virtual nos apaixonamos, fazemos amizade, criamos conflitos, nos decepcionamos, aprendemos, desaprendemos, no meio virtual podemos ser educados, solidários perversos, desinteressados, egocêntricos, paranóicos, engraçados...e podemos sim, fazer manifestações e ativismo. Li durante as últimas semanas muitas opiniões, na própria internet, que criticavam essa iniciativa, debochando, menosprezando e até xingando os participantes do que eles chamam “ativismo de sofá” ou “ativismo de butique”, como se fosse um ativismo de mentirinha. Já passou da hora de compreendermos que a internet e as redes sociais são formas vivas e legitimas de interação e comunicação, modos de fazermos laço social (como dizemos em linguagem psicanalítica), e assim como qualquer outra forma de laço, tem suas virtudes e também limitações e mal-entendidos. E nesses enlaçamentos podemos, sim, promover dentre tantas outras coisas, mobilizações vivas e potentes, que tanto podem permanecer apenas no campo virtual, quanto transbordar dessa virtualidade e “tomar corpo”.
Obviamente que nem todas as pessoas que participam desses movimentos vão tomá-lo da mesma forma, pelo mesmo motivo e com a mesma dedicação ou paixão. E nem todas essas manifestações terão o sucesso o pretendido, assim como nem todas as pessoas as compreenderão da mesma maneira. E também haverá pessoas e/ou instituições que tentarão fazer um uso torpe desse movimento. Mas, e daí? Isso não acontece também nos ativismos fora da internet?
A questão de incluir o sobrenome guarani-kaiwoá não teve pra mim o sentido de identificação. Não sou uma índia, não sou uma guarani-kaiwoá, nem saberia ser, obviamente, tenho consciência disso. Também sei que não sendo um deles não poderia me apropriar do discurso deles, sendo assim, não me sinto autorizada discursar POR eles, PARA eles ou SOBRE eles, (os guarani-kaiwoá) mas posso sim, discursar COM eles. Foi por isso que mudei meu nome, para participar da mobilização da maneira que pudesse participar, e porque entendi que, com este ato, poderia estar com eles de alguma maneira, compartilhando seu sofrimento e também sua luta por dias melhores. E afinal, essa também não é a luta de todos nós? Dias melhores?
Por que essa mobilização da sociedade acontece agora, neste momento histórico, apesar de o genocídio se desenrolar há décadas?
Não sei te dizer o motivo pelo qual esta mobilização aconteceu agora, talvez seja porque a carta dos guarani-kaiowá tenha realmente produzido um impacto, como se ela fosse um grito tão alto que nós não pudéssemos mais fingir que não ouvimos. Isso porque acredito que toda essa mobilização surgiu a partir da divulgação da carta.
Sou militante do movimento antimanicomial (nascido há mais de 20 anos, quando ainda não havia internet). Durante décadas os chamados doentes mentais ficaram encarcerados nos hospitais psiquiátricos, sofrendo maus tratos, tratamentos violentos e morrendo de desnutrição e diarréia por não terem direito as condições básicas de alimentação e saneamento. É claro que as críticas e descontentamento com esse modelo de tratamento já existiam, mas no entanto, foi a partir de um episódio específico que o movimento de luta contra o modelo manicomial tomou corpo. Nesse caso o gatilho disparador foi a divulgação do documentário “Em nome da razão” (1979) de Helvécio Ratton, que retratava a tragédia vivida pelos milhares de internos do Hospital Colônia de Barbacena, MG. O que quero dizer é que em todo tipo de ativismo e movimento social pode haver este momento pontual a partir do qual um gatilho é disparado. Acredito que isso aconteceu também no caso dos guarani-kaiowás, a partir da divulgação da carta.
(Nem preciso dizer que fiquei muito feliz e honrada em participar COM Eliane Brum na construção desta coluna que eu tanto admiro)
link para artigo de Eliane Brum na íntegra:
http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/11/sobrenome-guarani-kaiowa.html
Este texto é um depoimento que escrevi à convite de Eliane Brum, jornalista da Revista Época. Para construir sua coluna semanal ela solicitou que algumas pessoas respondessem as perguntas abaixo. Parte da minha resposta - que você lê agora na íntegra - foi publicada no artigo: Sobrenome: “Guarani Kaiowa”
Por que você acrescentou "guarani kaiowá" ao seu nome no twitter (e também feicibuqui?)? O que significa para um não índio como você dizer "SOU guarani kaiowá"/ se identificar como guarani kaiowá?
Decidi mudar meu nome virtual a partir de um convite de mobilização no feicebuque, e por meio do qual tomei conhecimento da carta da comunidade guarani-kaiowa enviada ao governo e a justiça do Brasil. O que mais me comoveu na carta foi quando ela diz: “Decretem nossa morte coletiva, enterrem-nos aqui” Sou uma profissional da saúde mental do SUS (psicóloga/psicanalista), lido todos os dias com o sofrimento das pessoas e não é incomum termos que lidar com essa radicalidade que é o desejo ou o ato de uma pessoa de por fim à própria vida. E isso sempre acontece quando a pessoa não enxerga nenhuma saída, nenhum caminho possível para sair do seu tormento. Quando a única saída pensada pelo sujeito é a morte é porque o seu sofrimento é muito, muito intenso, o que torna a nossa intervenção profissional extremamente difícil e delicada, além de nos colocar diante de um enorme sentimento de impotência e desimportância. Então, por me sentir sensibilizada com o sofrimento daquelas pessoas, por pensar que como profissional da saúde mental não poderia me silenciar, decidi participar da mobilização que era possível para mim naquele momento, no caso: mudar meu sobrenome. A partir desse ato, comecei a me interessar mais pelo tema, discutir e provocar o tema na minha rede de contatos da maneira que podia e, ainda, compartilhar minhas impressões também fora do campo virtual.
Algumas pessoas criticam as relações virtuais porque pensam nelas como uma espécie de fumaça. Como se este tipo de experiência não tocasse nosso corpo, nossa vida, nosso cotidiano, mas que bobagem....claro que tocam! No ambiente virtual nos apaixonamos, fazemos amizade, criamos conflitos, nos decepcionamos, aprendemos, desaprendemos, no meio virtual podemos ser educados, solidários perversos, desinteressados, egocêntricos, paranóicos, engraçados...e podemos sim, fazer manifestações e ativismo. Li durante as últimas semanas muitas opiniões, na própria internet, que criticavam essa iniciativa, debochando, menosprezando e até xingando os participantes do que eles chamam “ativismo de sofá” ou “ativismo de butique”, como se fosse um ativismo de mentirinha. Já passou da hora de compreendermos que a internet e as redes sociais são formas vivas e legitimas de interação e comunicação, modos de fazermos laço social (como dizemos em linguagem psicanalítica), e assim como qualquer outra forma de laço, tem suas virtudes e também limitações e mal-entendidos. E nesses enlaçamentos podemos, sim, promover dentre tantas outras coisas, mobilizações vivas e potentes, que tanto podem permanecer apenas no campo virtual, quanto transbordar dessa virtualidade e “tomar corpo”.
Obviamente que nem todas as pessoas que participam desses movimentos vão tomá-lo da mesma forma, pelo mesmo motivo e com a mesma dedicação ou paixão. E nem todas essas manifestações terão o sucesso o pretendido, assim como nem todas as pessoas as compreenderão da mesma maneira. E também haverá pessoas e/ou instituições que tentarão fazer um uso torpe desse movimento. Mas, e daí? Isso não acontece também nos ativismos fora da internet?
A questão de incluir o sobrenome guarani-kaiwoá não teve pra mim o sentido de identificação. Não sou uma índia, não sou uma guarani-kaiwoá, nem saberia ser, obviamente, tenho consciência disso. Também sei que não sendo um deles não poderia me apropriar do discurso deles, sendo assim, não me sinto autorizada discursar POR eles, PARA eles ou SOBRE eles, (os guarani-kaiwoá) mas posso sim, discursar COM eles. Foi por isso que mudei meu nome, para participar da mobilização da maneira que pudesse participar, e porque entendi que, com este ato, poderia estar com eles de alguma maneira, compartilhando seu sofrimento e também sua luta por dias melhores. E afinal, essa também não é a luta de todos nós? Dias melhores?
Por que essa mobilização da sociedade acontece agora, neste momento histórico, apesar de o genocídio se desenrolar há décadas?
Não sei te dizer o motivo pelo qual esta mobilização aconteceu agora, talvez seja porque a carta dos guarani-kaiowá tenha realmente produzido um impacto, como se ela fosse um grito tão alto que nós não pudéssemos mais fingir que não ouvimos. Isso porque acredito que toda essa mobilização surgiu a partir da divulgação da carta.
Sou militante do movimento antimanicomial (nascido há mais de 20 anos, quando ainda não havia internet). Durante décadas os chamados doentes mentais ficaram encarcerados nos hospitais psiquiátricos, sofrendo maus tratos, tratamentos violentos e morrendo de desnutrição e diarréia por não terem direito as condições básicas de alimentação e saneamento. É claro que as críticas e descontentamento com esse modelo de tratamento já existiam, mas no entanto, foi a partir de um episódio específico que o movimento de luta contra o modelo manicomial tomou corpo. Nesse caso o gatilho disparador foi a divulgação do documentário “Em nome da razão” (1979) de Helvécio Ratton, que retratava a tragédia vivida pelos milhares de internos do Hospital Colônia de Barbacena, MG. O que quero dizer é que em todo tipo de ativismo e movimento social pode haver este momento pontual a partir do qual um gatilho é disparado. Acredito que isso aconteceu também no caso dos guarani-kaiowás, a partir da divulgação da carta.
(Nem preciso dizer que fiquei muito feliz e honrada em participar COM Eliane Brum na construção desta coluna que eu tanto admiro)
link para artigo de Eliane Brum na íntegra:
http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/11/sobrenome-guarani-kaiowa.html
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
A contribuição ética da psicanálise para a sociedade atual
por: Rita de Cássia de Araújo Almeida
psicanalista
Nietzche lamenta que o ocidente moderno tenha promovido a negação da natureza trágica do homem. Segundo o filósofo, a era moderna reprimiu homem trágico para dar lugar ao homem teórico: o homem centrado, senhor de si, racional e, portanto, capaz de criar um método para conhecer e controlar o mundo que o cerca. Assim se confirmaria o ideal propagado na modernidade, pela via da razão teríamos todas as respostas.
Nesse caldeirão iluminista nasce a ciência, promessa de cura para todos os nossos mal-estares, entendendo a morte, o conflito, a loucura, o fracasso, a perda, a descontinuidade, o erro, a falta, a indisciplina, e tantas outras experiências trágicas da condição humana, como estrangeiras, malditas e odiosas. E o caminho não foi diferente no nascimento da psicologia, nesse caso, a promessa seria compreender o comportamento humano e assim, nos curar daqueles comportamentos indesejados e incômodos.
Freud, no entanto, será um dos responsáveis por desbancar o ideal da psicologia científica, afirmando com sua teoria do inconsciente que, ao contrário do que o discurso cartesiano pregava, o eu não é o senhor em sua própria casa. Com essa afirmação Freud questiona a noção do homem centrado e senhor de si, e ainda, derrotando definitivamente nossas pretensões narcisistas, afirma: não há cura para o desamparo humano. Ou seja, por mais que busquemos explicações, saídas e respostas, haverá sempre um mal-estar inevitável, inexplicável e, portanto, incurável, pelo fato de nossa existência ser essencialmente frágil, castrada, desamparada. Com efeito, a tragédia, por mais que a recusemos, será sempre nossa companheira inseparável.
E se não há cura para o desamparo humano, o que fazer com ele? O que fazer com o mal-estar da existência?
Grande parte do esforço da sociedade atual tem sido no sentido de silenciar todo e qualquer mal-estar. E essa forma de lidar com o mal-estar da existência traduz, exatamente, a diferença da intervenção da psicanálise para as demais psicoterapias, por exemplo. Enquanto essas últimas pretendem fazer calar o mal-estar, a psicanálise se propõe a escutá-lo, acolhê-lo, e fazer dele matéria prima para o processo de reinvenção do sujeito. A psicanálise, nesse sentido não compactua com intervenções normativas, pasteurizadoras e medicalizadoras, o que resulta numa ética que está mais próxima do fracasso do que de um suposto ideal de perfeição a ser perseguido. Para a psicanálise é do fracasso, desse mal-estar que não cessa, é que tiramos o barro com o qual não paramos de nos construir.
Acredito que essa ética proposta por Freud seja fundamental para os dias de hoje, apesar de muitos já terem decretado a morte da psicanálise. Fundamental para fazer uma crítica a nossa atual sociedade, que tem se preocupado muito mais em silenciar nossos sintomas do que escutá-los. Sendo assim, a judicialização e a medicalização tem sido os modos mais usados para lidar com nossos sintomas ou lidar com nossos problemas relacionais. Afinal, se partimos do pressuposto que há um ideal, admitiremos também ter a receita para alcançá-los, e o que é melhor para nossa sociedade capitalista, tal receita pode ser comprada/vendida. Vejamos dois exemplos bem atuais:
Ideal = criança comportada e sem problemas de aprendizagem. Se criança não aprende e não se comporta, solução = medicalização = criança comportada e sem problemas de aprendizagem.
Ideal = sujeito que não usa drogas ilícitas (principalmente crack). Se sujeito usa drogas, especialmente crack, solução = judicialização (internação involuntária) = sujeito que não usa drogas ilícitas (principalmente crack).
Entretanto, se partirmos de uma ética onde não há modelos ou ideais a serem perseguidos ou copiados, intervenções desse tipo perdem sua força, pois o caminho ou a solução passa a ser aquele que cada um pode, deseja ou pretende construir e com a certeza de que, ainda sim, algum tipo de mal-estar estará sempre presente, já que ele nunca cessa.
Já com relação ao desamparo humano, é o discurso religioso que promete curá-lo. O conceito de Deus como um Pai poderoso e amoroso serve para aquietar essa sensação de desamparo. Precisamos acreditar, afinal, que alguém olha e cuida de nós. Talvez, sem isso, sucumbiríamos ao desespero generalizado.
Mas, a psicanálise propõe uma outra saída para o nosso desamparo. Se por um lado ele não pode ser curado, erradicado, pode ser administrado em favor da coletividade, do bem-estar comum. Podemos promover a gestão do desamparo e do mal-estar por meio da nossa ligação com os outros, pelos laços sociais que somos capazes de criar, manter e fortalecer. Em última análise, para usar os termos de Freud, precisamos amar para não adoecer.
Finalizando, se quisermos pautar nossas intervenções na ética proposta pela psicanálise devemos fazer duas perguntas, que são fundamentais: Estamos intervindo sem nos preocupar com um ideal preestabelecido? Estamos promovendo e fortalecendo os laços sociais? Se a resposta for sim para essas duas perguntas, estamos conseguindo escapar desses dois discursos que empobrecem e enfraquecem nossa sociedade: a medicalização do sofrimento humano e a judicialização das nossas relações interpessoais.
psicanalista
Nietzche lamenta que o ocidente moderno tenha promovido a negação da natureza trágica do homem. Segundo o filósofo, a era moderna reprimiu homem trágico para dar lugar ao homem teórico: o homem centrado, senhor de si, racional e, portanto, capaz de criar um método para conhecer e controlar o mundo que o cerca. Assim se confirmaria o ideal propagado na modernidade, pela via da razão teríamos todas as respostas.
Nesse caldeirão iluminista nasce a ciência, promessa de cura para todos os nossos mal-estares, entendendo a morte, o conflito, a loucura, o fracasso, a perda, a descontinuidade, o erro, a falta, a indisciplina, e tantas outras experiências trágicas da condição humana, como estrangeiras, malditas e odiosas. E o caminho não foi diferente no nascimento da psicologia, nesse caso, a promessa seria compreender o comportamento humano e assim, nos curar daqueles comportamentos indesejados e incômodos.
Freud, no entanto, será um dos responsáveis por desbancar o ideal da psicologia científica, afirmando com sua teoria do inconsciente que, ao contrário do que o discurso cartesiano pregava, o eu não é o senhor em sua própria casa. Com essa afirmação Freud questiona a noção do homem centrado e senhor de si, e ainda, derrotando definitivamente nossas pretensões narcisistas, afirma: não há cura para o desamparo humano. Ou seja, por mais que busquemos explicações, saídas e respostas, haverá sempre um mal-estar inevitável, inexplicável e, portanto, incurável, pelo fato de nossa existência ser essencialmente frágil, castrada, desamparada. Com efeito, a tragédia, por mais que a recusemos, será sempre nossa companheira inseparável.
E se não há cura para o desamparo humano, o que fazer com ele? O que fazer com o mal-estar da existência?
Grande parte do esforço da sociedade atual tem sido no sentido de silenciar todo e qualquer mal-estar. E essa forma de lidar com o mal-estar da existência traduz, exatamente, a diferença da intervenção da psicanálise para as demais psicoterapias, por exemplo. Enquanto essas últimas pretendem fazer calar o mal-estar, a psicanálise se propõe a escutá-lo, acolhê-lo, e fazer dele matéria prima para o processo de reinvenção do sujeito. A psicanálise, nesse sentido não compactua com intervenções normativas, pasteurizadoras e medicalizadoras, o que resulta numa ética que está mais próxima do fracasso do que de um suposto ideal de perfeição a ser perseguido. Para a psicanálise é do fracasso, desse mal-estar que não cessa, é que tiramos o barro com o qual não paramos de nos construir.
Acredito que essa ética proposta por Freud seja fundamental para os dias de hoje, apesar de muitos já terem decretado a morte da psicanálise. Fundamental para fazer uma crítica a nossa atual sociedade, que tem se preocupado muito mais em silenciar nossos sintomas do que escutá-los. Sendo assim, a judicialização e a medicalização tem sido os modos mais usados para lidar com nossos sintomas ou lidar com nossos problemas relacionais. Afinal, se partimos do pressuposto que há um ideal, admitiremos também ter a receita para alcançá-los, e o que é melhor para nossa sociedade capitalista, tal receita pode ser comprada/vendida. Vejamos dois exemplos bem atuais:
Ideal = criança comportada e sem problemas de aprendizagem. Se criança não aprende e não se comporta, solução = medicalização = criança comportada e sem problemas de aprendizagem.
Ideal = sujeito que não usa drogas ilícitas (principalmente crack). Se sujeito usa drogas, especialmente crack, solução = judicialização (internação involuntária) = sujeito que não usa drogas ilícitas (principalmente crack).
Entretanto, se partirmos de uma ética onde não há modelos ou ideais a serem perseguidos ou copiados, intervenções desse tipo perdem sua força, pois o caminho ou a solução passa a ser aquele que cada um pode, deseja ou pretende construir e com a certeza de que, ainda sim, algum tipo de mal-estar estará sempre presente, já que ele nunca cessa.
Já com relação ao desamparo humano, é o discurso religioso que promete curá-lo. O conceito de Deus como um Pai poderoso e amoroso serve para aquietar essa sensação de desamparo. Precisamos acreditar, afinal, que alguém olha e cuida de nós. Talvez, sem isso, sucumbiríamos ao desespero generalizado.
Mas, a psicanálise propõe uma outra saída para o nosso desamparo. Se por um lado ele não pode ser curado, erradicado, pode ser administrado em favor da coletividade, do bem-estar comum. Podemos promover a gestão do desamparo e do mal-estar por meio da nossa ligação com os outros, pelos laços sociais que somos capazes de criar, manter e fortalecer. Em última análise, para usar os termos de Freud, precisamos amar para não adoecer.
Finalizando, se quisermos pautar nossas intervenções na ética proposta pela psicanálise devemos fazer duas perguntas, que são fundamentais: Estamos intervindo sem nos preocupar com um ideal preestabelecido? Estamos promovendo e fortalecendo os laços sociais? Se a resposta for sim para essas duas perguntas, estamos conseguindo escapar desses dois discursos que empobrecem e enfraquecem nossa sociedade: a medicalização do sofrimento humano e a judicialização das nossas relações interpessoais.
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
Temos salvação?
Por: Rita de Cássia de A Almeida
psicanalista
Nasci em uma família católica praticante. Meu nome, inclusive, é resultado da devoção de meu pai por Santa Rita de Cássia. Fui educada sob preceitos religiosos, mas hoje, não me considero uma pessoa religiosa. Os dogmas religiosos me incomodam, assim como me incomoda qualquer tipo de saber dogmático que se defina como A Verdade, já que não acredito numa verdade única ou num modo único de ver e conceber o mundo. Por outro lado, não advogo em favor dos que acreditam que o discurso religioso é um discurso menor que o discurso científico ou filosófico, por exemplo. Acredito que são apenas modos diferentes de compreender o mundo e de dar respostas para as perguntas que nos inquietam, e por isso mesmo, o saber científico, ou qualquer outra forma de saber, dependendo da maneira como é tratado, também pode se tornar tão dogmático quanto o religioso.
Meu conceito de Deus, hoje, é muito mais filosófico que religioso. Penso que a angústia provocada pela nossa incapacidade de acessar o real da existência nos impele a recorrer a Deus ou a religião, afinal, é mesmo difícil suportar a ideia de “não saber”. Ou seja, Deus existe sim, penso eu, porque precisamos Dele. Se eu rezo? Sim, às vezes. Mas, hoje, muito mais para reafirmar a força de um desejo do que por acreditar que um Ser Superior vai me dar o que preciso ou me salvar de alguma intempérie.
Creio ter resumido nesses dois parágrafos minha visão metafísica da existência. Mas mesmo não professando uma religião específica, me interesso pelo tema. Penso na religião como uma das muitas formas de manifestação da cultura humana e quando serve para reduzir a angústia e a dor de existir e, sobretudo, para promover a vida, o amor, a solidariedade o respeito pelo outro e pela natureza, pode ser muito útil e saudável para a humanidade. Muitas religiões foram e são capazes de revolucionar positivamente o modo de pensar de uma sociedade. O Cristianismo, por exemplo, provocou uma revolução quando pregou o “amai-vos uns aos outros” no lugar do “dente por dente, olho por olho” do Antigo Testamento. A luta pacífica de Gandhi contra a opressão Inglesa é outro exemplo de ética religiosa que reformulou positivamente os paradigmas de uma sociedade. Algumas teses religiosas me agradam. Gosto, por exemplo, da ideia dos Santos inventada pelo Catolicismo. Os Santos nos fazem pensar que pessoas comuns, limitadas, imperfeitas, humanas ou pecadoras – como dizem os cristãos – também são capazes de atos extraordinários, nobres e heroicos. Também me interesso pelas religiões re-encarnacionistas, mas as que acreditam – como o Budismo – que o espírito pode encarnar também em animais e outros seres vivos. Agrada-me a ideia de pensar que a espécie humana não é a única a ter alma e, portanto, tão importante como as demais formas de existência. Religiões que possuem entidades femininas também me agradam. O Judaísmo e o Cristianismo são religiões extremamente patriarcais. Dentre as religiões cristãs, apenas o catolicismo, a meu ver, tenta incluir a mulher, ainda que muito timidamente, através da divinização de Maria, a mãe de Jesus, e na figura das Santas, o que acho interessante.
Resumindo, defendo o discurso religioso apenas quando ele serve como agente transformador de uma sociedade, melhorando-a, potencializando suas virtudes, inventado e promovendo princípios éticos que nos ajudem a viver melhor em comunidade. Um bom exemplo é a chamada Teologia da Libertação, movimento religioso genuinamente latino-americano, nascido dentro do catolicismo, cujo expoente brasileiro é o frei Leonardo Boff, e que promove um cristianismo em favor dos excluídos e contra todas as formas de injustiça e opressão. Movimento que, aliás, foi lamentavelmente abafado pelo Vaticano.
Por outro lado, há um tema que muito me incomoda no discurso religioso que é o dA Salvação, especialmente, da maneira como tem sido tratado nas religiões cristãs mais fundamentalistas. A ideia dA Salvação como uma conquista individual é, no meu entendimento, a pior forma de individualismo que pode existir e, associada ao discurso capitalista, produz uma moral ou ética existencial degradada, excludente e perversa. Segundo tal preceito o mundo ficaria dividido entre os que "estão salvos" e os que "não estão salvos", cabendo aos que foram agraciados com a salvação, ou seja, os “donos da verdade”, convencerem os demais a partilhar desta mesma verdade. E infelizmente, as formas de persuasão para aceitar tal verdade podem ser as mais degradadas e degradantes. Uma delas é o convencimento pela produção do medo (do Diabo, do Inferno ou de outro tipo de castigo divino). Além da estratégia do medo, também muito usada para sustentar outras formas de poder, fica implícita (ou explicita) em muitas religiões, a ideia de que a aceitação de certa verdade religiosa está diretamente relacionada com o que se está disposto a investir financeiramente na instituição que, supostamente, a representa. É como se O Paraíso estivesse com seus ingressos à venda em vários locais, sendo que, cada um deles propagandeia sobre a veracidade do seu ingresso e a falsidade do ingresso do outro.
No bairro onde moro é muito comum sermos abordados por religiosos em missão de evangelização, como dizem, e sempre me interesso em conversar com eles, obviamente, que tentando abalar suas certezas. Um dia desses, para meu desespero, ou desespero da missionária, o tema abordado foi A Salvação. Ela me garantiu que estava salva e me perguntou se eu também não gostaria de alcançar essa benesse. Perguntei a ela o que eu deveria fazer para tal e ela, notadamente satisfeita com a minha pergunta, tratou de traduzir para mim um sem número de citações bíblicas que falavam da necessidade de que eu aceitasse A Palavra de Deus. Depois de algum tempo escutando-a fiz o meu papel de advogada do diabo e perguntei: “Você está salva porque aceitou A Palavra de Deus ou aceitou A Palavra de Deus somente para ser salva?”. Ela gaguejou, titubeou e não respondeu. Espero tê-la feito pensar...
Estamos hoje diante da ameaça real de aniquilação da vida na Terra pelo esgotamento dos seus recursos naturais, resultado do nosso modo de vida individualista, imediatista e consumista. E então eu me pergunto? De que vale a salvação individual de uma alma post mortem se não garantirmos a salvação do nosso Planeta em vida? E fazendo uso do discurso religioso, se a Terra e toda a Natureza que ela guarda foram criadas por Deus, estaria Ele satisfeito com o propósito de que cada um salve a si mesmo ainda que não salvemos Sua Criação como um todo? Penso eu que o discurso ecológico genuíno (e não aquele travestido de ecológico só para nos fazer consumir mais, dessa vez, os produtos ecologicamente corretos) que busca novos paradigmas éticos e morais que garantam a salvação do nosso planeta e seus habitantes, inaugura uma ética diferente e que muito me agrada: ou nos salvamos todos ou ninguém se salva.
A tragédia que se anuncia nesse novo mundo que nos espera – ou que já se faz presente – nos faz pensar que o conceito religioso de salvação individual precisa ser superado, para dar lugar a uma nova ética na qual o fundamento primeiro seja a coletividade, e não apenas de humanos, mas, de todas as espécies viventes. Enfim, o que quero dizer é que nenhum projeto de salvação individual me interessa, porque não me faz uma pessoa melhor e porque também não será capaz de inventar um mundo melhor, menos individualista e mais solidário.
psicanalista
Nasci em uma família católica praticante. Meu nome, inclusive, é resultado da devoção de meu pai por Santa Rita de Cássia. Fui educada sob preceitos religiosos, mas hoje, não me considero uma pessoa religiosa. Os dogmas religiosos me incomodam, assim como me incomoda qualquer tipo de saber dogmático que se defina como A Verdade, já que não acredito numa verdade única ou num modo único de ver e conceber o mundo. Por outro lado, não advogo em favor dos que acreditam que o discurso religioso é um discurso menor que o discurso científico ou filosófico, por exemplo. Acredito que são apenas modos diferentes de compreender o mundo e de dar respostas para as perguntas que nos inquietam, e por isso mesmo, o saber científico, ou qualquer outra forma de saber, dependendo da maneira como é tratado, também pode se tornar tão dogmático quanto o religioso.
Meu conceito de Deus, hoje, é muito mais filosófico que religioso. Penso que a angústia provocada pela nossa incapacidade de acessar o real da existência nos impele a recorrer a Deus ou a religião, afinal, é mesmo difícil suportar a ideia de “não saber”. Ou seja, Deus existe sim, penso eu, porque precisamos Dele. Se eu rezo? Sim, às vezes. Mas, hoje, muito mais para reafirmar a força de um desejo do que por acreditar que um Ser Superior vai me dar o que preciso ou me salvar de alguma intempérie.
Creio ter resumido nesses dois parágrafos minha visão metafísica da existência. Mas mesmo não professando uma religião específica, me interesso pelo tema. Penso na religião como uma das muitas formas de manifestação da cultura humana e quando serve para reduzir a angústia e a dor de existir e, sobretudo, para promover a vida, o amor, a solidariedade o respeito pelo outro e pela natureza, pode ser muito útil e saudável para a humanidade. Muitas religiões foram e são capazes de revolucionar positivamente o modo de pensar de uma sociedade. O Cristianismo, por exemplo, provocou uma revolução quando pregou o “amai-vos uns aos outros” no lugar do “dente por dente, olho por olho” do Antigo Testamento. A luta pacífica de Gandhi contra a opressão Inglesa é outro exemplo de ética religiosa que reformulou positivamente os paradigmas de uma sociedade. Algumas teses religiosas me agradam. Gosto, por exemplo, da ideia dos Santos inventada pelo Catolicismo. Os Santos nos fazem pensar que pessoas comuns, limitadas, imperfeitas, humanas ou pecadoras – como dizem os cristãos – também são capazes de atos extraordinários, nobres e heroicos. Também me interesso pelas religiões re-encarnacionistas, mas as que acreditam – como o Budismo – que o espírito pode encarnar também em animais e outros seres vivos. Agrada-me a ideia de pensar que a espécie humana não é a única a ter alma e, portanto, tão importante como as demais formas de existência. Religiões que possuem entidades femininas também me agradam. O Judaísmo e o Cristianismo são religiões extremamente patriarcais. Dentre as religiões cristãs, apenas o catolicismo, a meu ver, tenta incluir a mulher, ainda que muito timidamente, através da divinização de Maria, a mãe de Jesus, e na figura das Santas, o que acho interessante.
Resumindo, defendo o discurso religioso apenas quando ele serve como agente transformador de uma sociedade, melhorando-a, potencializando suas virtudes, inventado e promovendo princípios éticos que nos ajudem a viver melhor em comunidade. Um bom exemplo é a chamada Teologia da Libertação, movimento religioso genuinamente latino-americano, nascido dentro do catolicismo, cujo expoente brasileiro é o frei Leonardo Boff, e que promove um cristianismo em favor dos excluídos e contra todas as formas de injustiça e opressão. Movimento que, aliás, foi lamentavelmente abafado pelo Vaticano.
Por outro lado, há um tema que muito me incomoda no discurso religioso que é o dA Salvação, especialmente, da maneira como tem sido tratado nas religiões cristãs mais fundamentalistas. A ideia dA Salvação como uma conquista individual é, no meu entendimento, a pior forma de individualismo que pode existir e, associada ao discurso capitalista, produz uma moral ou ética existencial degradada, excludente e perversa. Segundo tal preceito o mundo ficaria dividido entre os que "estão salvos" e os que "não estão salvos", cabendo aos que foram agraciados com a salvação, ou seja, os “donos da verdade”, convencerem os demais a partilhar desta mesma verdade. E infelizmente, as formas de persuasão para aceitar tal verdade podem ser as mais degradadas e degradantes. Uma delas é o convencimento pela produção do medo (do Diabo, do Inferno ou de outro tipo de castigo divino). Além da estratégia do medo, também muito usada para sustentar outras formas de poder, fica implícita (ou explicita) em muitas religiões, a ideia de que a aceitação de certa verdade religiosa está diretamente relacionada com o que se está disposto a investir financeiramente na instituição que, supostamente, a representa. É como se O Paraíso estivesse com seus ingressos à venda em vários locais, sendo que, cada um deles propagandeia sobre a veracidade do seu ingresso e a falsidade do ingresso do outro.
No bairro onde moro é muito comum sermos abordados por religiosos em missão de evangelização, como dizem, e sempre me interesso em conversar com eles, obviamente, que tentando abalar suas certezas. Um dia desses, para meu desespero, ou desespero da missionária, o tema abordado foi A Salvação. Ela me garantiu que estava salva e me perguntou se eu também não gostaria de alcançar essa benesse. Perguntei a ela o que eu deveria fazer para tal e ela, notadamente satisfeita com a minha pergunta, tratou de traduzir para mim um sem número de citações bíblicas que falavam da necessidade de que eu aceitasse A Palavra de Deus. Depois de algum tempo escutando-a fiz o meu papel de advogada do diabo e perguntei: “Você está salva porque aceitou A Palavra de Deus ou aceitou A Palavra de Deus somente para ser salva?”. Ela gaguejou, titubeou e não respondeu. Espero tê-la feito pensar...
Estamos hoje diante da ameaça real de aniquilação da vida na Terra pelo esgotamento dos seus recursos naturais, resultado do nosso modo de vida individualista, imediatista e consumista. E então eu me pergunto? De que vale a salvação individual de uma alma post mortem se não garantirmos a salvação do nosso Planeta em vida? E fazendo uso do discurso religioso, se a Terra e toda a Natureza que ela guarda foram criadas por Deus, estaria Ele satisfeito com o propósito de que cada um salve a si mesmo ainda que não salvemos Sua Criação como um todo? Penso eu que o discurso ecológico genuíno (e não aquele travestido de ecológico só para nos fazer consumir mais, dessa vez, os produtos ecologicamente corretos) que busca novos paradigmas éticos e morais que garantam a salvação do nosso planeta e seus habitantes, inaugura uma ética diferente e que muito me agrada: ou nos salvamos todos ou ninguém se salva.
A tragédia que se anuncia nesse novo mundo que nos espera – ou que já se faz presente – nos faz pensar que o conceito religioso de salvação individual precisa ser superado, para dar lugar a uma nova ética na qual o fundamento primeiro seja a coletividade, e não apenas de humanos, mas, de todas as espécies viventes. Enfim, o que quero dizer é que nenhum projeto de salvação individual me interessa, porque não me faz uma pessoa melhor e porque também não será capaz de inventar um mundo melhor, menos individualista e mais solidário.
domingo, 26 de agosto de 2012
Elucubrações sobre a morte
Por: Rita de Cássia de A. Almeida
psicanalista
Esta semana estava às voltas com os Deveres de Casa (as tarefas passadas pela escola) da minha filha caçula, que acabou de completar 6 anos. Ela, dizendo que não precisava fazê-los e eu, tentando convencê-la do contrário. Usei inúmeros argumentos para incitá-la a fazer a tarefa até que, por fim, cansada de tantos porquês, apelei para o seu senso de responsabilidade e disse: “Você precisa fazer o Dever de Casa porque ele é muito importante”. E ela sem pestanejar, numa exclamação enfática, saiu com essa: “Mãe, muito importante é não morrer!”.
Bom, obviamente que a discussão acabou ali. Que poderia eu responder diante do seu argumento? O jeito foi apelar para o velho e bom: “Você vai fazer esse dever porque eu mandei e pronto!”. Isso encerrou o assunto... Para ela, mas não para mim. Sua resposta ficou fazendo ecos na minha mente, atormentada por natureza.
Tomada por elucubrações a respeito da morte, concluí que concordo plenamente com minha filha: não há nada mais importante que não morrer. E concordo por dois motivos. Primeiro, pela afirmação em si e segundo, por uma concepção filosófica importante que a afirmação dela carrega e da qual eu também compartilho: a de que vida é uma espécie de resistência à morte. Nesse sentido, não morrer seria um ato de rebeldia, de relutância, já que a tendência natural seria morrer, retornar ao nada, à quietude, ou ao Nirvana, como acredita o principio Budista. (Freud também se valia de tal princípio).
Seguindo esta forma de pensar, a morte não é ausência de vida ou um evento trágico que interrompe o que seria uma tendência natural: viver. Ao contrário. A vida é que é uma não morte, um acontecimento, um milagre, uma explosão entre duas mortes. A morte, sim, é a tendência natural das coisas, o real que invariavelmente se abate ou se abaterá sobre tudo que vive.
Então é verdade que não há nada mais importante que não morrer. Não há nada mais importante do que defender, perdurar e fortalecer esse impulso revolucionário que faz da vida um verdadeiro milagre, quase que improvável. (A improbabilidade da vida é, inclusive, a conclusão da maioria dos cientistas que discursam sobre a teoria da criação da vida e do Universo).
Tomada por esses pensamentos me lembrei de uma conferência do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, que assisti recentemente na internet, intitulada “A morte como quase acontecimento”, que trata de diferentes concepções de morte em culturas diversas. Dentre os vários temas levantados pelo antropólogo, um me chamou a atenção. Ele aponta que na visão ocidental moderna, como nos apegamos à questão da linhagem familiar, nossos inimigos se encontram fora de nossa família ou clã, podendo eles estarem mortos ou vivos.
Tal visão fica bem ilustrada na tragédia Shakespeareana – Romeu e Julieta. Nela o conflito se dá na luta entre Montecchios x Capuletos. Conflito este perpetuado por gerações e resultando em intenso ódio e inúmeras mortes. Em resumo temos: Montecchios (mortos e vivos) de um lado contra Capuletos (mortos e vivos) de outro. Eventualmente ampliamos este conceito de família ou clã para entrarmos em conflito com os outros. Nos unimos numa comunidade, num partido, numa religião ou numa nação, mas sempre teremos: mortos e vivos de um lado contra mortos e vivos de outro.
Mas este modo de pensar não é universal, segundo Eduardo Viveiros. Existem tribos indígenas que se organizam de um modo bem diferente. Numa delas os grandes inimigos são os mortos. Ainda que se trate de sua mãe, seu pai, seu filho ou seu melhor amigo, ao morrer todos eles se transformam no seu pior inimigo, inimigo a ser evitado, combatido e temido. Seria a mesma idéia que sustenta os filmes e seriados de zumbis: “todos os vivos” contra “todos os mortos”. Toda a energia social, neste caso, é canalizada para evitar a morte, ou seja, evitar que o exército dos mortos amplie e se fortaleça.
Tal concepção, pelo que compreendi, também muda toda a forma de relação social. Nessa tribo não é concebível, por exemplo, qualquer tipo de luta ou conflito entre vivos que possa resultar em risco de morte. Assassinatos, por exemplo, seriam atos impensáveis, afinal, porque alguém iria querer fortalecer o inimigo? Imagino que este raciocínio valha também para os suicídios. No caso das doenças ou atividades que envolvam risco, elas são sempre interpretadas como armadilhas dos mortos para levar os vivos para o outro lado, exigindo sempre cuidado extra dos membros da tribo. E não um cuidado individual, mas um cuidado coletivo, já que a morte de um membro torna-se um risco para todos.
Adorei pensar sob a perspectiva desta tribo e agora, depois do argumento da minha pequena sabida, tal perspectiva faz ainda mais sentido. Entendo que a grande ética que deve sustentar a existência humana seria aquela capaz de investir todos os nossos esforços - sociais, culturais ou tecnológicos - para não morrer. Mas fazendo uso do modo de pensar da tribo citada, não se trata apenas de evitar a morte individual (nisso nossa sociedade é especialista). Também não se trata de evitar a morte apenas dos nossos pares, os membros da nossa comunidade, nossos compatriotas ou aliados políticos e religiosos. A idéia central seria todos os vivos combatendo toda a espécie de morte, o que implicaria numa ética que procurasse fazer de tudo para que todos os seres vivos (humanos ou não) pudessem ter o mais plenamente possível a possibilidade de não morrer, enquanto indivíduo, enquanto corpo social, enquanto comunidade ou enquanto espécie, ainda que saibamos que se trata apenas de um adiamento, um esforço para protelar o inevitável. Não morrer e não deixar morrer - seria este o princípio maior.
Voltando à discussão filosófica levantada pela minha caçula, já disse que concordamos que não há nada mais importante que não morrer. Mas o que talvez ela não saiba, e, certamente aprenderá, comigo inclusive, é que não morrer não é o mesmo que sobreviver. Não morrer é muito mais complexo. Por isso, fazer ou não fazer o Dever de Casa, assim como fazer ou deixar de fazer tantas outras coisas, se tornam também, ao longo de nossas vidas, formas de não morrer. Um exercício cotidiano, contínuo e persistente de resistir à morte ainda que estejamos todos, invariavelmente, caminhando para ela. E se aprendermos com nossos sábios irmãos índios, entenderemos que esse exercício de não morrer só funciona se o fizermos pensando na coletividade.
(A quem possa interessar, segue o link da conferência citada: http://www.youtube.com/watch?v=Zdz8U9_8YVU )
psicanalista
Esta semana estava às voltas com os Deveres de Casa (as tarefas passadas pela escola) da minha filha caçula, que acabou de completar 6 anos. Ela, dizendo que não precisava fazê-los e eu, tentando convencê-la do contrário. Usei inúmeros argumentos para incitá-la a fazer a tarefa até que, por fim, cansada de tantos porquês, apelei para o seu senso de responsabilidade e disse: “Você precisa fazer o Dever de Casa porque ele é muito importante”. E ela sem pestanejar, numa exclamação enfática, saiu com essa: “Mãe, muito importante é não morrer!”.
Bom, obviamente que a discussão acabou ali. Que poderia eu responder diante do seu argumento? O jeito foi apelar para o velho e bom: “Você vai fazer esse dever porque eu mandei e pronto!”. Isso encerrou o assunto... Para ela, mas não para mim. Sua resposta ficou fazendo ecos na minha mente, atormentada por natureza.
Tomada por elucubrações a respeito da morte, concluí que concordo plenamente com minha filha: não há nada mais importante que não morrer. E concordo por dois motivos. Primeiro, pela afirmação em si e segundo, por uma concepção filosófica importante que a afirmação dela carrega e da qual eu também compartilho: a de que vida é uma espécie de resistência à morte. Nesse sentido, não morrer seria um ato de rebeldia, de relutância, já que a tendência natural seria morrer, retornar ao nada, à quietude, ou ao Nirvana, como acredita o principio Budista. (Freud também se valia de tal princípio).
Seguindo esta forma de pensar, a morte não é ausência de vida ou um evento trágico que interrompe o que seria uma tendência natural: viver. Ao contrário. A vida é que é uma não morte, um acontecimento, um milagre, uma explosão entre duas mortes. A morte, sim, é a tendência natural das coisas, o real que invariavelmente se abate ou se abaterá sobre tudo que vive.
Então é verdade que não há nada mais importante que não morrer. Não há nada mais importante do que defender, perdurar e fortalecer esse impulso revolucionário que faz da vida um verdadeiro milagre, quase que improvável. (A improbabilidade da vida é, inclusive, a conclusão da maioria dos cientistas que discursam sobre a teoria da criação da vida e do Universo).
Tomada por esses pensamentos me lembrei de uma conferência do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, que assisti recentemente na internet, intitulada “A morte como quase acontecimento”, que trata de diferentes concepções de morte em culturas diversas. Dentre os vários temas levantados pelo antropólogo, um me chamou a atenção. Ele aponta que na visão ocidental moderna, como nos apegamos à questão da linhagem familiar, nossos inimigos se encontram fora de nossa família ou clã, podendo eles estarem mortos ou vivos.
Tal visão fica bem ilustrada na tragédia Shakespeareana – Romeu e Julieta. Nela o conflito se dá na luta entre Montecchios x Capuletos. Conflito este perpetuado por gerações e resultando em intenso ódio e inúmeras mortes. Em resumo temos: Montecchios (mortos e vivos) de um lado contra Capuletos (mortos e vivos) de outro. Eventualmente ampliamos este conceito de família ou clã para entrarmos em conflito com os outros. Nos unimos numa comunidade, num partido, numa religião ou numa nação, mas sempre teremos: mortos e vivos de um lado contra mortos e vivos de outro.
Mas este modo de pensar não é universal, segundo Eduardo Viveiros. Existem tribos indígenas que se organizam de um modo bem diferente. Numa delas os grandes inimigos são os mortos. Ainda que se trate de sua mãe, seu pai, seu filho ou seu melhor amigo, ao morrer todos eles se transformam no seu pior inimigo, inimigo a ser evitado, combatido e temido. Seria a mesma idéia que sustenta os filmes e seriados de zumbis: “todos os vivos” contra “todos os mortos”. Toda a energia social, neste caso, é canalizada para evitar a morte, ou seja, evitar que o exército dos mortos amplie e se fortaleça.
Tal concepção, pelo que compreendi, também muda toda a forma de relação social. Nessa tribo não é concebível, por exemplo, qualquer tipo de luta ou conflito entre vivos que possa resultar em risco de morte. Assassinatos, por exemplo, seriam atos impensáveis, afinal, porque alguém iria querer fortalecer o inimigo? Imagino que este raciocínio valha também para os suicídios. No caso das doenças ou atividades que envolvam risco, elas são sempre interpretadas como armadilhas dos mortos para levar os vivos para o outro lado, exigindo sempre cuidado extra dos membros da tribo. E não um cuidado individual, mas um cuidado coletivo, já que a morte de um membro torna-se um risco para todos.
Adorei pensar sob a perspectiva desta tribo e agora, depois do argumento da minha pequena sabida, tal perspectiva faz ainda mais sentido. Entendo que a grande ética que deve sustentar a existência humana seria aquela capaz de investir todos os nossos esforços - sociais, culturais ou tecnológicos - para não morrer. Mas fazendo uso do modo de pensar da tribo citada, não se trata apenas de evitar a morte individual (nisso nossa sociedade é especialista). Também não se trata de evitar a morte apenas dos nossos pares, os membros da nossa comunidade, nossos compatriotas ou aliados políticos e religiosos. A idéia central seria todos os vivos combatendo toda a espécie de morte, o que implicaria numa ética que procurasse fazer de tudo para que todos os seres vivos (humanos ou não) pudessem ter o mais plenamente possível a possibilidade de não morrer, enquanto indivíduo, enquanto corpo social, enquanto comunidade ou enquanto espécie, ainda que saibamos que se trata apenas de um adiamento, um esforço para protelar o inevitável. Não morrer e não deixar morrer - seria este o princípio maior.
Voltando à discussão filosófica levantada pela minha caçula, já disse que concordamos que não há nada mais importante que não morrer. Mas o que talvez ela não saiba, e, certamente aprenderá, comigo inclusive, é que não morrer não é o mesmo que sobreviver. Não morrer é muito mais complexo. Por isso, fazer ou não fazer o Dever de Casa, assim como fazer ou deixar de fazer tantas outras coisas, se tornam também, ao longo de nossas vidas, formas de não morrer. Um exercício cotidiano, contínuo e persistente de resistir à morte ainda que estejamos todos, invariavelmente, caminhando para ela. E se aprendermos com nossos sábios irmãos índios, entenderemos que esse exercício de não morrer só funciona se o fizermos pensando na coletividade.
(A quem possa interessar, segue o link da conferência citada: http://www.youtube.com/watch?v=Zdz8U9_8YVU )
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