por Rita de Cássia de Araújo Almeida
psicanalista e cidadã do mundo
“Yes, we can”. Este foi o lema da campanha presidencial de Barack Obama em 2009. A intenção era obvia: transmitir uma mensagem de esperança e motivação endereçada ao povo americano, mas, também não deixou de ser um recado ao mundo, uma forma de reafirmar o poderio americano depois de uma década de desgastes e crises .
Obviamente que esse lema carrega o brio e a capacidade de superação do povo americano, qualidades capazes de fortalecer e enobrecer qualquer país do mundo, e das quais ninguém duvida. E mesmo com todos os abalos políticos e econômicos sofridos nos últimos anos, os EUA ainda se mantêm como a nação mais poderosa do mundo. Enfim, todos sabemos do que podem os EUA. Entretanto, o que esperávamos com o final da Era Bush é que os Estados Unidos começassem a entender algo a respeito do que eles não podem.
Primeiramente os EUA não podem continuar acreditando, defendendo e se baseando na idéia de que o que é bom para eles é bom para outros povos ou para o mundo. Tal premissa, preconceituosa, etnocêntrica e prepotente, lamentavelmente reafirmada por Obama, impede que os Estados Unidos entendam que não podem tratar os demais países como meros coadjuvantes de uma cena onde eles são a personagem principal.
Os EUA não podem manter medidas protecionistas que resguardam seus produtos e provocam concorrência desleal no mercado mundial, prejudicando os demais países.
Os EUA não podem simplesmente desconsiderar ou desrespeitar os protocolos internacionais assinados para tentar reduzir a poluição e a devastação do meio ambiente, apenas para preservarem sua própria economia.
Os EUA não podem manter embargos econômicos, com o de Cuba, por exemplo, sob a justificativa de não concordarem com esta ou aquela concepção ou diretriz política e econômica.
Os EUA não podem desrespeitar a soberania de países independentes sob quaisquer alegações, não podem tratá-los como se fossem o quintal de sua própria casa.
Os EUA não podem mais defender e sustentar a idéia de que é possível resolver divergências ou impasses na política mundial por meio de intervenções militares. Não podem promover e sustentar guerras, especialmente sob a falsa alegação de que são em nome da liberdade, da democracia ou da paz.
Todos sabemos que os EUA e o povo americano podem muito, mas estamos especialmente interessados que eles compreendam que, ainda sim, não podem muitas coisas.
A vitória de Obama representava para o mundo a derrocada do conservadorismo de direita de Bush e o fim de uma política externa carregada e intolerância política e religiosa,arrogância e violência. Obama é, sem dúvida alguma, bem mais simpático e carismárico que Bush e tem um discurso bem mais ameno, entretanto, na prática,infelizmente, ele não tem feito muito diferente de seu antecessor. Continua preso à sua máxima de campanha que diz que sim, os americanos podem, esquecendo-se de considerar que os outros povos também podem: os libios podem, os palestinos podem, os mexicanos, os brasileiros, os cubanos,os iranianos, os russos e os coreanos também podem. Esperávamos que com Obama, os EUA deixassem de lado a idéia de que o mundo gira em torno deles, mas, parece que ainda não foi desta vez.
segunda-feira, 21 de março de 2011
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
O adeus de Ronaldo.
por: Rita de Cássia de A Almeida
psicanalista e fã de Ronaldo
Esta semana Ronaldo – o fenômeno – discursou emocionado em entrevista que marcou o encerramento de sua brilhante carreira como jogador de futebol. Ao tentar explicar o inexplicável e o inevitável fato de ter que “pendurar as chuteiras” aos 34 anos, Ronaldo afirmou: “Meu corpo me venceu”. Dentre as muitas coisas interessantes e bonitas ditas por Ronaldo na ocasião desta entrevista, esta frase é particularmente arrebatadora. Afinal, é certo que corpo sempre nos vence; a todos nós. O corpo é o nosso limite.
Apesar disso, insistimos em viver a ilusão do corpo sem limites. Desejamos um corpo saudável, perfeito e, sobretudo, eterno. Por isso rejeitamos a dor, o sofrimento, as marcas da idade e quaisquer imperfeições ou fracassos que nos levem a constatar a mais pura das verdades: somos todos limitados. O corpo venceu Ronaldo e, em última análise sempre vence a todos nós. Não somos tão saudáveis quanto poderíamos e nem tão belos quanto desejaríamos. Padecemos de dores e imperfeições. Invariavelmente fracassamos. Envelhecemos, morremos. Ou seja, por mais que busquemos alargar o limite da nossa invencibilidade, ainda sim o corpo sempre nos vence.
Certamente, esta é uma constatação angustiante para a grande maioria nós ou mesmo insuportável para alguns. O discurso emocionado de Ronaldo é testemunha disso. Do quanto pode ser sofrido admitir e assumir fracassos, tanto aqueles impostos por nosso corpo, quanto quaisquer outros. Mas, por outro lado, somente aqueles que conseguem chegar ao ponto de assumir seus próprios limites e fracassos serão capazes de atravessá-los para alcançar a outra margem.
A Mitologia Grega descreve seus grandes heróis como aqueles que conseguiram atravessar os sofrimentos, provações e limitações impostas pela condição humana, para se transformarem. Mas, lembramos que atravessar limites não é o mesmo que evitá-los ou desconsiderá-los. Atravessar não é driblar ou mascarar. Atravessar também não é se tornar vítima de seus limites. Atravessar é constatar que o limite existe, encará-lo e prosseguir; com ele e apesar dele.
Quem escutou toda a entrevista de Ronaldo teve a oportunidade de assistir o belo testemunho de uma autêntica travessia. Em certo momento ele afirma que o que está fazendo é o anuncio de sua primeira morte, para logo em seguida dizer: “ainda quero muito”. Isso sim é atravessar um limite. É ter vontade e força para prosseguir mesmo depois de aceitá-lo.
Infelizmente, temos optado por uma vida anestesiada, medicalizada, vitimizada, “botoxizada”, turbinada, homogeneizada, sem sobressaltos ou riscos e, de preferência, livre de imperfeições e fracassos. A pílula azul que promete dar adeus ao fantasma do fracasso sexual, talvez seja o retrato da maneira como estamos lidando com nossos mal-estares. E assim seguimos, escolhendo negar nossos limites e com eles jogando fora a oportunidade de fazer a travessia própria da condição humana; limitada e imperfeita, mas ainda sim, bela e vitoriosa.
Obrigada, Ronaldo. Pelos dribles, pelos gols, pelas vitórias e especialmente, por nos revelar o que uma vida precisa pra valer a pena: “Tive muitas derrotas, infinitas vitórias e fiz muitos amigos”. Quem precisa mais que isso?
psicanalista e fã de Ronaldo
Esta semana Ronaldo – o fenômeno – discursou emocionado em entrevista que marcou o encerramento de sua brilhante carreira como jogador de futebol. Ao tentar explicar o inexplicável e o inevitável fato de ter que “pendurar as chuteiras” aos 34 anos, Ronaldo afirmou: “Meu corpo me venceu”. Dentre as muitas coisas interessantes e bonitas ditas por Ronaldo na ocasião desta entrevista, esta frase é particularmente arrebatadora. Afinal, é certo que corpo sempre nos vence; a todos nós. O corpo é o nosso limite.
Apesar disso, insistimos em viver a ilusão do corpo sem limites. Desejamos um corpo saudável, perfeito e, sobretudo, eterno. Por isso rejeitamos a dor, o sofrimento, as marcas da idade e quaisquer imperfeições ou fracassos que nos levem a constatar a mais pura das verdades: somos todos limitados. O corpo venceu Ronaldo e, em última análise sempre vence a todos nós. Não somos tão saudáveis quanto poderíamos e nem tão belos quanto desejaríamos. Padecemos de dores e imperfeições. Invariavelmente fracassamos. Envelhecemos, morremos. Ou seja, por mais que busquemos alargar o limite da nossa invencibilidade, ainda sim o corpo sempre nos vence.
Certamente, esta é uma constatação angustiante para a grande maioria nós ou mesmo insuportável para alguns. O discurso emocionado de Ronaldo é testemunha disso. Do quanto pode ser sofrido admitir e assumir fracassos, tanto aqueles impostos por nosso corpo, quanto quaisquer outros. Mas, por outro lado, somente aqueles que conseguem chegar ao ponto de assumir seus próprios limites e fracassos serão capazes de atravessá-los para alcançar a outra margem.
A Mitologia Grega descreve seus grandes heróis como aqueles que conseguiram atravessar os sofrimentos, provações e limitações impostas pela condição humana, para se transformarem. Mas, lembramos que atravessar limites não é o mesmo que evitá-los ou desconsiderá-los. Atravessar não é driblar ou mascarar. Atravessar também não é se tornar vítima de seus limites. Atravessar é constatar que o limite existe, encará-lo e prosseguir; com ele e apesar dele.
Quem escutou toda a entrevista de Ronaldo teve a oportunidade de assistir o belo testemunho de uma autêntica travessia. Em certo momento ele afirma que o que está fazendo é o anuncio de sua primeira morte, para logo em seguida dizer: “ainda quero muito”. Isso sim é atravessar um limite. É ter vontade e força para prosseguir mesmo depois de aceitá-lo.
Infelizmente, temos optado por uma vida anestesiada, medicalizada, vitimizada, “botoxizada”, turbinada, homogeneizada, sem sobressaltos ou riscos e, de preferência, livre de imperfeições e fracassos. A pílula azul que promete dar adeus ao fantasma do fracasso sexual, talvez seja o retrato da maneira como estamos lidando com nossos mal-estares. E assim seguimos, escolhendo negar nossos limites e com eles jogando fora a oportunidade de fazer a travessia própria da condição humana; limitada e imperfeita, mas ainda sim, bela e vitoriosa.
Obrigada, Ronaldo. Pelos dribles, pelos gols, pelas vitórias e especialmente, por nos revelar o que uma vida precisa pra valer a pena: “Tive muitas derrotas, infinitas vitórias e fiz muitos amigos”. Quem precisa mais que isso?
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
Mosaico
Rita de Cássia de Araújo Almeida
(Pela primeira vez estou publicando em meu blog um artigo com pretenções literárias. Ele foi publicado recentemente pela revista TRAVESSIAS e pode ser acessado também no link abaixo: http://www.unioeste.br/travessias/literaria/Rita%20PRONTO.pdf
Tornar-se mulher não é uma tarefa fácil. Trata-se de ficar aqui e ali remendando uns cacos que vamos recolhendo vida a fora, na tentativa de montar uma espécie de mosaico que,afinal, nos pareça belo e compreensível – o que é sempre difícil.
Alguns desses cacos por mim recolhidos vêm de uma história que meu pai sempre contava, segundo ele, acontecida quando ainda era menino na roça, história também contada pelo seu pai. Eu, desde menina adorava essa, dentre todas as histórias que meu pai costumava contar nos almoços de domingo. Mesmo repetidamente contada era encantadoramente trágica e cômica, e eu de tanto escuta-la, já sabia exatamente o momento de rir e me comover, entretanto, só pude compreendê-la com o passar do tempo na medida em que minha inocência foi se encolhendo. Na tarefa de me tornar mulher, essa história foi me cedendo seus cacos.
Nas palavras de meu pai tratava-se da história de dois compadres: seu Antônio e seu Joaquim; ambos casados. Seu Antônio, com Filomena – mulata ancuda, de beiço gordo e dentes de marfim – e seu Joaquim, com Madalena – descolorida, cabisbaixa e mãos calejadas da labuta na terra. Nenhum dos casais tinha filhos, apesar de já passarem dos trinta, idade em que a maioria, naquelas condições, já acumulava ao menos quatro rebentos.
Certa vez, os dois compadres, muito amigos, dividiam como de costume a mesa do único boteco da região, tomando uns goles para encerrar o dia. Era um dia normal de trabalho cansativo na lavoura – o corpo doía muito e a cabeça pensava pouco. Ambos acenderam seu pito e olhavam tranqüilos a fumaça ganhando a noite que chegava devagar, sentindo a bebida esquentando o bucho quase vazio. Depois de algum tempo, quando o juízo e o pudor se afogaram no copo de cachaça, seu Joaquim fez ao amigo uma proposta meio extraviada, que já matutava há algum tempo, mas ainda não reunira coragem e falta de vergonha para fazê-la.
Pensou numa forma de expor seu intento sem causar muito alarde, mas afinal compreendeu que não haveria uma forma amena de falar o que pretendia, era mesmo no supetão, com o risco de perder o amigo. E foi assim num supetão, entre o primeiro e o último gole da meiota, que seu Joaquim atirou à queima roupa, perguntando se era do interesse do amigo que trocassem de mulher. Seu Antônio se assustou de início, ajeitou as calças, raspou a garganta, ficou desinquieto, encheu mais um copo, depois fez certo silêncio, levantou as sobrancelhas por três vezes e enfim deu seu veredicto: topou a barganha, mas com a condição de que o compadre lhe desse em troca sua mula e o facão que sempre carregava na cintura. Seu Joaquim fez menção em esquecer o negócio, mas foi então que se lembrou das ancas da mulata e estendeu a mão ao amigo, selando o trato desabençoado.
No lugar, dia e hora combinados cada qual apareceu com sua mulher, sendo que seu Joaquim trouxe também a mula e o facão. As mulheres sem saber de nada ainda, escutaram dos maridos a revelação do destino que dali pra frente haviam de se submeter. Nenhuma delas ousou retrucar, se olharam num misto de desespero e vergonha, e se limitaram a acompanhar seus novos homens, no caminho que escolheram para elas. Todos se despediram com alguma estranheza, e rumaram para seus lares de adultério consentido.
Seu Joaquim inebriado pelas ancas da mulata, só despertou ao perceber que Filomena, naquele mesmo dia, havia deixado sua casa sem levar nada e sem deixar nada, pois que nada ali era dela. Esse ainda correu para a casa do amigo, pensando que ela tivesse voltado pra lá, mas não teve sorte, a mulata sumiu no mundo e para sempre. Apesar do desgosto, seu Joaquim manteve o trato, era homem de palavra. E este foi o único orgulho que lhe acompanhou dali para adiante; até o final. De resto, a solidão e a humilhação tomaram conta de seu coração de maneira galopante. Perdeu as duas mulheres, a mula, seu precioso facão e ainda teve de conviver com a certeza que a secura de sua antiga mulher era por culpa sua, já que, em poucos meses Madalena estava com o bucho cheio, emprenhada pelo compadre Antônio. Este último, por sua vez, fez um excelente negócio: ganhou uma mulher trabalhadeira – que deu a ele três filhos –, uma boa mula – que lhe rendeu muitas léguas de caminhada – e o facão – que ficava
pregado na parede da sala de reboco de barro, como um troféu, a despeito de sua empreitada vitoriosa. É verdade que de quando em vez, seu Antônio se entristecia vendo o compadre Joaquim se entregando a bebida e aos fins de tarde sem esperança, mas logo lhe vinha o conforto de saber que tal idéia, não havia saído de sua cachola.
Eu dizia que esta história, me fez encontrar algumas respostas, sobre o que é ser mulher... Papai me contava esta história, é claro, pela ótica dos homens nas suas disputas infindáveis, mas eu tentava vê-la pelo olhar daquelas duas mulheres. Uma, que simplesmente se submete ao destino que lhe é imposto pelos homens e outra, que deixa tudo para traz e sai em busca de seu próprio caminho. Eu sempre ficava tentando imaginar qual delas teria sido mais feliz, mas sempre era difícil tentar chegar a uma conclusão, conclusão esta que me faria decidir: Madalena ou Filomena?
E foi essa a questão que me torturou durante muito tempo. Desejaria me apegar ou me libertar? Ficar ou partir? Pensava eu que decidir por um caminho era abolir o outro. Qual nada! Hoje sei que posso escolher as duas. Foi assim que preferi Madalena e Filomena, duas mulheres maravilhosas que me ensinaram o enredo do feminino. Às vezes recorro a Madalena, que me ensina a me resignar para criar meus filhos e amar meu homem, outras vezes, Filomena me socorre não me deixando morrer sufocada, iluminando o caminho que apenas eu posso percorrer, sozinha.
Madalena e Filomena, Filomena e Madalena. Ser mulher é assim: pura plasticidade!
(Pela primeira vez estou publicando em meu blog um artigo com pretenções literárias. Ele foi publicado recentemente pela revista TRAVESSIAS e pode ser acessado também no link abaixo: http://www.unioeste.br/travessias/literaria/Rita%20PRONTO.pdf
Tornar-se mulher não é uma tarefa fácil. Trata-se de ficar aqui e ali remendando uns cacos que vamos recolhendo vida a fora, na tentativa de montar uma espécie de mosaico que,afinal, nos pareça belo e compreensível – o que é sempre difícil.
Alguns desses cacos por mim recolhidos vêm de uma história que meu pai sempre contava, segundo ele, acontecida quando ainda era menino na roça, história também contada pelo seu pai. Eu, desde menina adorava essa, dentre todas as histórias que meu pai costumava contar nos almoços de domingo. Mesmo repetidamente contada era encantadoramente trágica e cômica, e eu de tanto escuta-la, já sabia exatamente o momento de rir e me comover, entretanto, só pude compreendê-la com o passar do tempo na medida em que minha inocência foi se encolhendo. Na tarefa de me tornar mulher, essa história foi me cedendo seus cacos.
Nas palavras de meu pai tratava-se da história de dois compadres: seu Antônio e seu Joaquim; ambos casados. Seu Antônio, com Filomena – mulata ancuda, de beiço gordo e dentes de marfim – e seu Joaquim, com Madalena – descolorida, cabisbaixa e mãos calejadas da labuta na terra. Nenhum dos casais tinha filhos, apesar de já passarem dos trinta, idade em que a maioria, naquelas condições, já acumulava ao menos quatro rebentos.
Certa vez, os dois compadres, muito amigos, dividiam como de costume a mesa do único boteco da região, tomando uns goles para encerrar o dia. Era um dia normal de trabalho cansativo na lavoura – o corpo doía muito e a cabeça pensava pouco. Ambos acenderam seu pito e olhavam tranqüilos a fumaça ganhando a noite que chegava devagar, sentindo a bebida esquentando o bucho quase vazio. Depois de algum tempo, quando o juízo e o pudor se afogaram no copo de cachaça, seu Joaquim fez ao amigo uma proposta meio extraviada, que já matutava há algum tempo, mas ainda não reunira coragem e falta de vergonha para fazê-la.
Pensou numa forma de expor seu intento sem causar muito alarde, mas afinal compreendeu que não haveria uma forma amena de falar o que pretendia, era mesmo no supetão, com o risco de perder o amigo. E foi assim num supetão, entre o primeiro e o último gole da meiota, que seu Joaquim atirou à queima roupa, perguntando se era do interesse do amigo que trocassem de mulher. Seu Antônio se assustou de início, ajeitou as calças, raspou a garganta, ficou desinquieto, encheu mais um copo, depois fez certo silêncio, levantou as sobrancelhas por três vezes e enfim deu seu veredicto: topou a barganha, mas com a condição de que o compadre lhe desse em troca sua mula e o facão que sempre carregava na cintura. Seu Joaquim fez menção em esquecer o negócio, mas foi então que se lembrou das ancas da mulata e estendeu a mão ao amigo, selando o trato desabençoado.
No lugar, dia e hora combinados cada qual apareceu com sua mulher, sendo que seu Joaquim trouxe também a mula e o facão. As mulheres sem saber de nada ainda, escutaram dos maridos a revelação do destino que dali pra frente haviam de se submeter. Nenhuma delas ousou retrucar, se olharam num misto de desespero e vergonha, e se limitaram a acompanhar seus novos homens, no caminho que escolheram para elas. Todos se despediram com alguma estranheza, e rumaram para seus lares de adultério consentido.
Seu Joaquim inebriado pelas ancas da mulata, só despertou ao perceber que Filomena, naquele mesmo dia, havia deixado sua casa sem levar nada e sem deixar nada, pois que nada ali era dela. Esse ainda correu para a casa do amigo, pensando que ela tivesse voltado pra lá, mas não teve sorte, a mulata sumiu no mundo e para sempre. Apesar do desgosto, seu Joaquim manteve o trato, era homem de palavra. E este foi o único orgulho que lhe acompanhou dali para adiante; até o final. De resto, a solidão e a humilhação tomaram conta de seu coração de maneira galopante. Perdeu as duas mulheres, a mula, seu precioso facão e ainda teve de conviver com a certeza que a secura de sua antiga mulher era por culpa sua, já que, em poucos meses Madalena estava com o bucho cheio, emprenhada pelo compadre Antônio. Este último, por sua vez, fez um excelente negócio: ganhou uma mulher trabalhadeira – que deu a ele três filhos –, uma boa mula – que lhe rendeu muitas léguas de caminhada – e o facão – que ficava
pregado na parede da sala de reboco de barro, como um troféu, a despeito de sua empreitada vitoriosa. É verdade que de quando em vez, seu Antônio se entristecia vendo o compadre Joaquim se entregando a bebida e aos fins de tarde sem esperança, mas logo lhe vinha o conforto de saber que tal idéia, não havia saído de sua cachola.
Eu dizia que esta história, me fez encontrar algumas respostas, sobre o que é ser mulher... Papai me contava esta história, é claro, pela ótica dos homens nas suas disputas infindáveis, mas eu tentava vê-la pelo olhar daquelas duas mulheres. Uma, que simplesmente se submete ao destino que lhe é imposto pelos homens e outra, que deixa tudo para traz e sai em busca de seu próprio caminho. Eu sempre ficava tentando imaginar qual delas teria sido mais feliz, mas sempre era difícil tentar chegar a uma conclusão, conclusão esta que me faria decidir: Madalena ou Filomena?
E foi essa a questão que me torturou durante muito tempo. Desejaria me apegar ou me libertar? Ficar ou partir? Pensava eu que decidir por um caminho era abolir o outro. Qual nada! Hoje sei que posso escolher as duas. Foi assim que preferi Madalena e Filomena, duas mulheres maravilhosas que me ensinaram o enredo do feminino. Às vezes recorro a Madalena, que me ensina a me resignar para criar meus filhos e amar meu homem, outras vezes, Filomena me socorre não me deixando morrer sufocada, iluminando o caminho que apenas eu posso percorrer, sozinha.
Madalena e Filomena, Filomena e Madalena. Ser mulher é assim: pura plasticidade!
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
O JN, o durex e a tomografia.
Por Rita de Cássia A. Almeida
O JN já foi palco de inúmeras ‘babaquices’, especialmente quando a intenção era privilegiar candidatos e partidos políticos de sua preferência, mas essa semana o programa se superou ao tentar provar que o que atingiu o candidato Serra numa caminhada de campanha não foi uma inocente bolinha de papel, mas um perigosíssimo rolo de durex. Repetindo o mantra do nosso presidente, nunca na história deste país eu assisti a tamanha bizarrice em um telejornal. Foi no mínimo lamentável, para não utilizar outros adjetivos impublicáveis. O JN pareceu, na verdade, uma continuação do programa eleitoral de Serra, ao tentar de toda maneira justificar o fato do referido candidato ter cancelado todos os seus compromissos de campanha do dia e de se submeter a uma tomografia computadorizada para avaliar os danos prováveis causados por uma bolinha de papel calibre A4 ou um rolo de durex de calibre incerto. Mais lamentável ainda é o fato da grande mídia brasileira chamar esse tipo de reportagem de garantia à liberdade de imprensa. Liberdade é claro desde que seja para defender seus interesses políticos, corporativos e econômicos. Liberdade para dar destaque para as notícias que lhe interessam e ocultar outras que consideram menos importantes. Liberdade para publicar inverdades e criar factóides, que tomam uma importância que jamais deveriam tomar. Liberdade para transformar uma disputa presidencial numa discussão rasteira e perversa sobre quem é ou não a favor do aborto, por exemplo, mesmo sabendo que legalizar ou não o aborto não é mérito do Presidente da Republica, mas sim de legislações sujeitas a discussão entre deputados e senadores e participação ampla da sociedade.
Mas a firula plantada e excessivamente valorizada pela direção de campanha de Serra e a peripécia jornalística do casal Bonner reforçando o evento, não contavam com a potência subversiva da internet. Enquanto a TV é capaz de direcionar nossos olhos e ouvidos decidindo por nós o que é a verdade, a internet nos oferece inúmeras verdades possíveis, nos possibilitando escolher.
Quem não ficou somente com a versão da Globo, ouviu o presidente Lula, em mais uma de suas brilhantes tiradas, comparar o Serra com o goleiro Roberto Rojas, que simulou ter sido atingido por um rojão num jogo do Brasil contra o Chile no Maracanã, em 1989, válido pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 1990. Rojas chegou a fazer um corte em sua própria testa para valorizar a farsa. Depois disso a Seleção Chilena foi suspensa por quatro anos e Rojas foi banido do esporte.
Inspirada por esta comparação os ‘twitteiros’ de plantão criaram a tag #serrarojas que chegou ao primeiro lugar em acessos no twitter mundial e varou a madrugada dos últimos dias como tema de discussão, crítica e deboche dos internautas. O comentário que eu mais gostei dizia que o médico de Serra, após o resultado da tal tomografia, sugeriu que ele ficasse em repouso durante os próximos quatro anos. Creio que depois deste vexame, o digníssimo candidato não terá mesmo outra escolha.
O JN, por sua vez, deveria ser processado por agressão violenta à inteligência de seus telespectadores. Contratar um perito pra provar se o ‘projétil’ desferido contra o Serra foi bolinha de papel ou rolo de durex foi realmente ridículo. Pra finalizar, vou repetir um dos comentários postados no twitter: ‘Acabei de assistir o JN e minha inteligência foi agredida violentamente. Vocês me dão licença, mas eu vou fazer uma tomografia pra ver a gravidade da lesão’.
22 de outubro de 2010
O JN já foi palco de inúmeras ‘babaquices’, especialmente quando a intenção era privilegiar candidatos e partidos políticos de sua preferência, mas essa semana o programa se superou ao tentar provar que o que atingiu o candidato Serra numa caminhada de campanha não foi uma inocente bolinha de papel, mas um perigosíssimo rolo de durex. Repetindo o mantra do nosso presidente, nunca na história deste país eu assisti a tamanha bizarrice em um telejornal. Foi no mínimo lamentável, para não utilizar outros adjetivos impublicáveis. O JN pareceu, na verdade, uma continuação do programa eleitoral de Serra, ao tentar de toda maneira justificar o fato do referido candidato ter cancelado todos os seus compromissos de campanha do dia e de se submeter a uma tomografia computadorizada para avaliar os danos prováveis causados por uma bolinha de papel calibre A4 ou um rolo de durex de calibre incerto. Mais lamentável ainda é o fato da grande mídia brasileira chamar esse tipo de reportagem de garantia à liberdade de imprensa. Liberdade é claro desde que seja para defender seus interesses políticos, corporativos e econômicos. Liberdade para dar destaque para as notícias que lhe interessam e ocultar outras que consideram menos importantes. Liberdade para publicar inverdades e criar factóides, que tomam uma importância que jamais deveriam tomar. Liberdade para transformar uma disputa presidencial numa discussão rasteira e perversa sobre quem é ou não a favor do aborto, por exemplo, mesmo sabendo que legalizar ou não o aborto não é mérito do Presidente da Republica, mas sim de legislações sujeitas a discussão entre deputados e senadores e participação ampla da sociedade.
Mas a firula plantada e excessivamente valorizada pela direção de campanha de Serra e a peripécia jornalística do casal Bonner reforçando o evento, não contavam com a potência subversiva da internet. Enquanto a TV é capaz de direcionar nossos olhos e ouvidos decidindo por nós o que é a verdade, a internet nos oferece inúmeras verdades possíveis, nos possibilitando escolher.
Quem não ficou somente com a versão da Globo, ouviu o presidente Lula, em mais uma de suas brilhantes tiradas, comparar o Serra com o goleiro Roberto Rojas, que simulou ter sido atingido por um rojão num jogo do Brasil contra o Chile no Maracanã, em 1989, válido pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 1990. Rojas chegou a fazer um corte em sua própria testa para valorizar a farsa. Depois disso a Seleção Chilena foi suspensa por quatro anos e Rojas foi banido do esporte.
Inspirada por esta comparação os ‘twitteiros’ de plantão criaram a tag #serrarojas que chegou ao primeiro lugar em acessos no twitter mundial e varou a madrugada dos últimos dias como tema de discussão, crítica e deboche dos internautas. O comentário que eu mais gostei dizia que o médico de Serra, após o resultado da tal tomografia, sugeriu que ele ficasse em repouso durante os próximos quatro anos. Creio que depois deste vexame, o digníssimo candidato não terá mesmo outra escolha.
O JN, por sua vez, deveria ser processado por agressão violenta à inteligência de seus telespectadores. Contratar um perito pra provar se o ‘projétil’ desferido contra o Serra foi bolinha de papel ou rolo de durex foi realmente ridículo. Pra finalizar, vou repetir um dos comentários postados no twitter: ‘Acabei de assistir o JN e minha inteligência foi agredida violentamente. Vocês me dão licença, mas eu vou fazer uma tomografia pra ver a gravidade da lesão’.
22 de outubro de 2010
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
A eleição do palhaço Tiririca
por Rita de Cássia de Araújo Almeida
eleitora
Para fazermos um diagnóstico das eleições do último dia 3 de outubro, talvez o melhor “sintoma” a ser avaliado seja eleição do palhaço Tiririca como Deputado Federal em São Paulo. O fato tem sido lamentado por muitos, especialmente pela classe política, que se sente obviamente, desqualificada e achincalhada, mas, definitivamente, não se pode desprezar um milhão e trezentos mil votos, certamente, eles querem nos dizer alguma coisa.
É fácil atribuir a eleição de Tiririca a um oportunismo individualista, à suposta ignorância do seu eleitorado ou a um mero deboche das urnas. Também é fácil desqualificar o Deputado eleito, fazendo observações preconceituosas a respeito de sua profissão ou sobre o fato de, supostamente, ser analfabeto. Eu prefiro entender o acontecido como um recado da população à nossa classe política, que quer dizer mais ou menos assim: “Já que a política nacional virou palhaçada, então aí está um palhaço de verdade!”
Assim, espero que na presença de um palhaço de profissão, nossos políticos de profissão entendam que nosso povo não quer mais saber de “circo” e “palhaçada” dentro das Assembléias e do Senado. Espero que se envergonhem de si mesmos e se esforcem por fazer de suas legislaturas motivo de orgulho e respeito para nós brasileiras e brasileiros. Quem sabe a presença de Tiririca denuncie diariamente aos demais eleitos, que política deve ser tratada com seriedade, com seriedade suficiente para deixar qualquer palhaço sem graça.
Aliado a isso, desejo sinceramente que o Sr. Deputado, Francisco Everardo Oliveira Silva, se sensibilize e se responsabilize pela sua expressiva votação e cumpra sua promessa de campanha. Pra quem não sabe, Tiririca, em sua propaganda eleitoral, assumia não saber o que faz e para que serve um Deputado, mas prometia que quando eleito fosse, diria a todos o que aprendeu sobre sua experiência. Se o ilustre Deputado usar sua legislatura para conscientizar o povo sobre a importância e os deveres éticos de um Deputado e não permitir que seus colegas de legislatura se esqueçam de tal importância e deveres, já terá prestado um enorme serviço a esta nação.
A piada, o chiste são formas interessantes de denunciar e apontar falhas. O que nos faz rir no final de uma piada é a mudança brusca que ela provoca em nosso pensamento, o sobressalto, o engano. Deste modo, não lamento pela eleição de Tiririca, esta piada poderá servir de denuncia para as falhas do nosso sistema político, provocar sobressaltos interessantes. Por outro lado, espero que durante os próximos quatro anos, o palhaço não se sinta em casa.
eleitora
Para fazermos um diagnóstico das eleições do último dia 3 de outubro, talvez o melhor “sintoma” a ser avaliado seja eleição do palhaço Tiririca como Deputado Federal em São Paulo. O fato tem sido lamentado por muitos, especialmente pela classe política, que se sente obviamente, desqualificada e achincalhada, mas, definitivamente, não se pode desprezar um milhão e trezentos mil votos, certamente, eles querem nos dizer alguma coisa.
É fácil atribuir a eleição de Tiririca a um oportunismo individualista, à suposta ignorância do seu eleitorado ou a um mero deboche das urnas. Também é fácil desqualificar o Deputado eleito, fazendo observações preconceituosas a respeito de sua profissão ou sobre o fato de, supostamente, ser analfabeto. Eu prefiro entender o acontecido como um recado da população à nossa classe política, que quer dizer mais ou menos assim: “Já que a política nacional virou palhaçada, então aí está um palhaço de verdade!”
Assim, espero que na presença de um palhaço de profissão, nossos políticos de profissão entendam que nosso povo não quer mais saber de “circo” e “palhaçada” dentro das Assembléias e do Senado. Espero que se envergonhem de si mesmos e se esforcem por fazer de suas legislaturas motivo de orgulho e respeito para nós brasileiras e brasileiros. Quem sabe a presença de Tiririca denuncie diariamente aos demais eleitos, que política deve ser tratada com seriedade, com seriedade suficiente para deixar qualquer palhaço sem graça.
Aliado a isso, desejo sinceramente que o Sr. Deputado, Francisco Everardo Oliveira Silva, se sensibilize e se responsabilize pela sua expressiva votação e cumpra sua promessa de campanha. Pra quem não sabe, Tiririca, em sua propaganda eleitoral, assumia não saber o que faz e para que serve um Deputado, mas prometia que quando eleito fosse, diria a todos o que aprendeu sobre sua experiência. Se o ilustre Deputado usar sua legislatura para conscientizar o povo sobre a importância e os deveres éticos de um Deputado e não permitir que seus colegas de legislatura se esqueçam de tal importância e deveres, já terá prestado um enorme serviço a esta nação.
A piada, o chiste são formas interessantes de denunciar e apontar falhas. O que nos faz rir no final de uma piada é a mudança brusca que ela provoca em nosso pensamento, o sobressalto, o engano. Deste modo, não lamento pela eleição de Tiririca, esta piada poderá servir de denuncia para as falhas do nosso sistema político, provocar sobressaltos interessantes. Por outro lado, espero que durante os próximos quatro anos, o palhaço não se sinta em casa.
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