quarta-feira, 24 de julho de 2013

Sobre o Holocausto Brasileiro, livro de Daniela Arbex

Por Rita de Cássia de Araújo Almeida
Psicóloga/psicanalista
Trabalhadora da rede de saúde mental do SUS

Ainda estou sob o impacto do livro Holocausto Brasileiro, da premiada jornalista do Tribuna de Minas, Daniela Arbex. A realidade contada no livro não era desconhecida para mim, já que sou trabalhadora da Saúde Mental do SUS e militante do Movimento Antimanicomial há 17 anos, mas a riqueza de detalhes, com fotos e documentos e a forma sensível como Daniela tratou tamanha tragédia, me tocaram profundamente.

Há momentos da história da humanidade que todos nós preferiríamos esquecer. Momentos que nos fazem sentir vergonha de pertencer à espécie humana. Ao testemunhar através dos olhos da autora o horror imposto aos “doentes mentais” do Hospital Colônia de Barbacena no século passado, não há como não sentir revolta pela nossa espécie. Porque permitimos tanto descaso, desrespeito e horror? Como pudemos estar tão cegos para aquela realidade, e por tanto tempo?

Dizem que os índios não foram capazes de enxergar as primeiras caravelas portuguesas que chegaram ao Brasil, simplesmente porque nunca tinham visto nada parecido, sendo assim não tiveram parâmetros para enxergar, mesmo podendo ver. Sendo assim, a única explicação que encontrei para compreender porque tamanha barbárie se sustentou por décadas foi exatamente essa: a de que muitas das testemunhas desse holocausto viam, mas não enxergavam. Afinal, o olhar também precisa aprender a enxergar.

Mas depois que aprendemos a enxergar, fomos capazes de gradativamente desmontar aquela realidade dantesca, apesar de lamentavelmente, alguns daqueles horrores ainda assombrarem nosso presente, aqui e acolá. Através da sua obra, a autora nos convida a enxergar essa tragédia mais uma vez e com mais profundidade, e esse aprendizado não pode ser perdido para que não cometamos os mesmos erros novamente, em outras situações e com novas vítimas. Por isso, mesmo desejando esquecer esse período sombrio da nossa história recente, é muito bom que Daniela refresque nossa memória.

sábado, 13 de julho de 2013

Entre Maria Louca e Maria Maluquinha tem um Bolsa Família.

Por: Rita de Cássia de Araújo Almeida
Psicanalista
Trabalhadora de CAPS da Rede de Saúde Mental do SUS


Este texto tem uma personagem: Maria. Maria é um nome fictício, mas tudo mais é real, tão real que muitos leitores vão pensar que é ficção.

No início da nossa história Maria é pobre, muito pobre, na verdade, Maria é miserável. Sem nenhuma renda, ela e sua única filha vivem da caridade e da boa vontade de pessoas e instituições. Maria também tem pouquíssima escolaridade, parece uma personagem tirada daquele programa de humor que é a cara da pobreza da nossa TV. Maria fala “pobrema” (problema), “risistente social” (assistente social), “conselho titular” (conselho tutelar), “presentivo” (preventivo), “elétrico” (eletroencefalograma) dentre outras pérolas. Além de tudo Maria é louca, e ela geralmente, concordava com este rótulo que lhe davam. Com algumas passagens por hospícios da região, confessava: “nunca tive cabeça boa pra trabalhar”.

Mas atualmente, Maria não aceita mais ser chamada de louca, se considera uma “maluquinha”. Mas para fazer a travessia de louca para maluquinha, passaram-se quase 10 anos, e muita coisa aconteceu nesse caminho, incluindo um abençoado Bolsa Família. Eu sempre tive vontade de escrever um texto sobre o Bolsa Família e achei apropriado usar a história de Maria para fazê-lo.

Em 17 anos de trabalho em serviços de Saúde Mental do SUS (CAPS), lidando diariamente com pessoas, em geral, pobres, muito pobres ou miseráveis, aprendi uma coisa que só a experiência ensina. Existe uma diferença descomunal, abissal, entre ser pobre e ser miserável. Quem não lida cotidianamente com a população mais humilde, talvez conheça os pobres, mas não conhece os miseráveis, já que eles são “invisíveis a olho nu”. E esse seria o mesmo destino de Maria, ser invisível, mas afinal, sua loucura incomodou e obrigou que a enxergássemos. Foi assim que tomamos conhecimento de Maria, a louca, sem pai nem mãe, rejeitada pela família, em sua miséria absoluta, dependendo do que encontrava no lixo, de favores ou da caridade alheia para sobreviver com sua filha.

Quando ouço pessoas que criticam o Bolsa Família ou outro programa de transferência de renda, dizendo que ele acostuma mal as pessoas, estimula a preguiça e desvirtua o caráter, sinto vontade de vomitar. Quem diz isso, definitivamente, não sabe o que é miséria. Quem faz esse tipo de afirmação tosca e preconceituosa, para usar palavras publicáveis, nunca passou pela situação de encontrar em R$ 70,00 algum alento. Com pouquíssima probabilidade de errar, ninguém que está lendo agora este texto sabe, na carne, o real valor de R$ 70,00. Maria sabe. Muitos aqui vão duvidar, mas R$ 70,00 ou R$ 130,00 (média nacional do valor repassado para cada família com o Bolsa Família), é capaz de reduzir o enorme abismo entre a miséria e a pobreza, e com isso, viabilizar um status inicial necessário para acessar qualquer outro tipo possível de justiça social: ser visto.

E R$ 70,00 fez muita diferença na vida de Maria, não só pelo valor, mas porque em mais de 30 anos de vida, esse foi o primeiro dinheiro que ela conseguiu que não fosse por caridade ou proveniente de algum dos homens com os quais, eventualmente, se aventurava a morar. Isso porque o Bolsa Família não é tratado pelos profissionais, não pelos sérios e éticos, como um mero benefício assistencial ou uma esmola do prefeito ou do governo, mas como um direito. Sendo assim, o cartão do Bolsa Família foi o primeiro direito que Maria conquistou, depois dele, como veremos, muitos outros vieram.

Um segundo direito que Maria teve voz e força para exigir depois do primeiro, foi uma pensão alimentícia para filha. O ex-companheiro de Maria era alcoolista, raramente tinha trabalho fixo, e mesmo quando conseguia algum trabalho, não pagava pensão, regularmente. Mas Maria tinha aprendido a exigir seus direitos, e foi até às últimas conseqüências para conseguir que o pai da menina pagasse a pensão, achou até justo quando ele quase foi preso por não cumprir com a obrigação. Hoje ele paga a pensão de R$ 90,00 assiduamente, e ela assina o recibo na nossa frente (como ficou combinado na justiça), com a postura de quem aprendeu a lutar pelo seu lugar no mundo.

A loucura de Maria, que se instalou desde o nascimento da filha, continuava a lhe imputar uma incapacidade real para o trabalho formal. Sua irritabilidade e instabilidade emocionais faziam de qualquer relação possível com o outro, um inferno. Mesmo dentro do CAPS, eram comuns suas agressões verbais e até físicas a técnicos e outros usuários.

Maria, eventualmente, se envolvia com homens com os quais imaginava conquistar alguma segurança, mas em geral, eles obedeciam a um mesmo padrão: alcoolistas ou usuários de drogas, também pobres, com ligações familiares empobrecidas e sem trabalho fixo. Com esses homens, Maria vive relações muito conturbadas e violentas. Assim também vinha caminhando a relação com seu atual companheiro, e com o qual Maria teve um filho, hoje com 3 anos.

Inúmeras vezes tentamos conseguir para Maria o BPC (Benefício de Prestação Continuada), que assegura um salário mínimo para idosos, ou pessoas com alguma deficiência grave, que não contribuíram com a previdência social, desde que a renda familiar per capta não ultrapasse ¼ (um quarto) do salário mínimo vigente. Mas, apesar de inúmeras tentativas, Maria não passava na perícia médica, não era considerada suficientemente incapaz para fazer juz ao benefício.

O fato é que, após muita insistência, no final do ano passado, Maria finalmente conseguiu o BPC e assim que teve certeza de que o benefício chegaria, avisou com satisfação, que agora poderia devolver o cartão do Bolsa Família para que ele pudesse ajudar outra pessoa. Era justo que tivesse recebido o benefício por um tempo e agora, com sua nova condição assegurada, era justo que o passasse adiante. Apesar de louca e ignorante, como a maioria a considerava, Maria sabia o exato significado da palavra justiça, mesmo tendo tão pouco acesso a ela.

Com alguns meses recebendo salário mínimo, além de poder atender suas necessidades básicas e a dos dois filhos, Maria teve melhorias subjetivas ainda mais notórias. A vaidade consigo mesma e com seu pequeno barraco (herança dos pais), que mesmo nos tempos de miséria insistiam em manter nela um pouco de orgulho, hoje se destacam e evidenciam cada vez mais seu estilo. Maria sempre gostou de bijuteria, maquiagem, sapato, bolsa e roupas e, tal como antes, ainda depende de doações para atender a esses seus caprichos. Mas hoje ela parece feliz em apenas poder se aventurar em entrar numa loja e perguntar o preço das coisas. Ontem me abordou dizendo que viu uma calça igual a que eu vestia por R$ 90,00, achou muito cara e, por isso, não comprou. Semana passada Maria compartilhou numa reunião com outros usuários do CAPS, com lágrimas nos olhos, que mês que vem irá realizar o sonho da sua vida: comprar um jogo de panelas na loja. “Meu sonho é comprar um jogo de panelas novo e colocar tudo em cima da mesa”. O projeto seguinte é colocar piso na casa, toda de chão batido.

Também existem os preconceituosos de plantão que vão criticar os que, depois de saírem do abismo da miséria, se rendem ao consumo. Então nós vivemos numa sociedade capitalista e consumista, que propagandeia o tempo todo que podemos alcançar felicidade comprando coisas e acusamos de consumistas os que estão tendo a primeira oportunidade de testar se essa teoria é verdadeira? Ah, tá!

Mas, quem acredita que uma renda mensal mínima tem apenas efeito de consumo, também se engana. Cerca de dois meses depois de Maria ter recebido seu primeiro salário mínimo questionei a ela como estava sua relação com o companheiro, perguntei se ainda se estapeavam. E ela me respondeu: “Não, agora eu não deixo mais ele me bater”. Sendo eu uma psicanalista, poderia ter interpretado a frase dela dizendo: “Mas, então, antes você deixava?” Mas não foi necessário, eu sabia exatamente porque Maria aceitava apanhar. Ao contrário do que muitos podem supor essa Maria, e muitas outras, não apanham por gosto ou costume, tampouco são fãs dos “50 tons”. Nossas Marias aceitam a violência porque acreditam que esse é o preço que têm que pagar para manter em casa seu homem e com ele algum respeito, amor próprio ou possibilidade de sustento para si mesma e para os seus filhos, ainda que esses sejam ganhos totalmente ilusórios.

Já concluindo, preciso contar o que aconteceu no último mês de maio, por ocasião da festa do nosso CAPS em comemoração ao dia Nacional de Luta Antimanicomial. Durante os eventos, Maria nos surpreendeu ao pegar o microfone e recitar uma longa poesia feita por ela, na qual tecia, com muito humor, sua trajetória de louca à maluquinha. No seu poema, meio cantado meio falado, “louca” tinha a conotação pejorativa que lhe davam no passado e “maluquinha” falava de como ela se via hoje, do seu jeitinho diferente, meio maluquinho sim, mas também capaz de declarar seu amor pela vida e pelas pessoas que ali estavam. Era o outro com o qual ela “nunca se dava” transformando-se, finalmente, em objeto de seu amor.

Sim, passado o período em que só podia viver no campo da necessidade imediata e urgente de sobreviver junto com seus filhos, Maria alcança o campo da arte. Maria produz cultura. Atualmente está empolgadíssima com a possibilidade de ser atriz em uma peça de teatro produzida pelo CAPS e cuja história poderá ser a sua própria, aquela tecida em seu poema.

Ainda há quem chame Maria de louca. Para mim, louco é quem critica benefícios sociais e programas de transferência de renda sem saber o que é ser invisível. Muitos dirão que Maria é uma analfabeta ignorante. Para mim, ignorante é quem não consegue olhar em torno, é quem só consegue ver o mundo a partir do próprio umbigo.

Para você que insiste em criticar programas sociais, eu deixo Maria no seu encalço. Mas se sua intenção for apenas criticar, com os amigos ou nas redes sociais, algum tipo de benefício pago com recurso público e que você não recebe, tenho algumas sugestões. Numa pesquisa rápida no Google, descobri alguns auxílios concedidos a ministros, vereadores, deputados, senadores, desembargadores, policiais federais, diplomatas, altas patentes do exército, marinha ou aeronáutica e/ou juízes. São eles: Bolsa Moradia, Bolsa Paletó, Bolsa Passagens Aéreas, Bolsa Combustível, Bolsa Telefone, Bolsa Gabinete, Bolsa Alimentação, Bolsa Despesas, Bolsa Creche, Bolsa Indenizatória, Bolsa Estudo, Bolsa Funeral e Bolsa Assistência Médica. Obviamente, que nem todas as categorias citadas recebem todos esses benefícios, mas cada uma delas recebe pelo menos duas ou três “Bolsas” citadas. E, na verdade, esses benefícios não são chamados de “Bolsa”, fui eu quem, propositalmente, os batizei com esse nome. Mas bem que poderiam chamar, não é? (Eu não pesquisei o valor de tais “Bolsas”, se você quiser fazê-lo fique à vontade. Sugiro apenas que tome um antiácido antes)

Então, alguém aí pra tentar me convencer que o Bolsa Família não é um direito justo?

sexta-feira, 28 de junho de 2013

EU NÃO QUERO MAIS DO MESMO

Em tempo de levantar bandeiras, peço licença para levantar as minhas.

Eu não quero mais automóveis, viadutos, estacionamentos, avenidas, sinais de trânsito, pontes ou anéis rodoviários. Eu quero uma cidade que privilegie os caminhantes e os ciclistas, os corredores de rua, os cadeirantes, os deficientes visuais e os que passeiam com seus animais. Quero uma rua tão humanizada que o termo “morador de rua” perca totalmente seu sentido pejorativo.

Eu não quero mais empresas, indústrias, empregos, agências ou mais vagas em concurso público. Eu quero um mundo onde possamos trabalhar menos, para dedicarmos ao ócio, à contemplação, às artes e aos nossos filhos e livros.

Eu não quero mais hospitais, mais métodos terapêuticos, mais especialistas, mais modalidades de exames, mais planos de saúde e técnicas cirúrgicas. Eu quero um mundo onde a gente adoeça menos, se contamine menos, se estresse menos, se desgaste menos, se acidente menos. Um mundo no qual tenhamos tempo suficiente para nossos afetos e nossos jardins.

Eu não quero mais médicos, professores, advogados, burocratas, psicanalistas, jornalistas, comerciantes, policiais ou motoristas de caminhão. Eu quero é gente. Gente que cante e dance, gente que chore, que acolha, que acaricie os gatos, gente que se indigne e que sonhe.

Eu não quero mais velocidade de conexão, mais sites na internet, mais minutos para falar no celular ou mais “largura de banda”. Eu quero encontros, abraços, conversas na calçada, tardes na praça, almoços em família, piqueniques no bosque, viagens sem pressa e papos de botequim.

Eu não quero mais renda, mais salário, mais oportunidades financeiras, mais PIB, mais linhas de financiamento, mais limite no cartão de crédito ou mais crescimento econômico. Eu quero é um mundo onde o dinheiro seja cada vez menos importante pra gente se sentir feliz.

Eu não quero mais hidrelétricas, mais arranha-céus, mais antenas de telefonia, mais shoppings centers e condomínios. Eu quero que a água, os rios e as árvores retomem para nós a importância que tinham para os primeiros habitantes dessa terra; os povos indígenas.

Eu não quero mais tecnologia, mais produção científica, mais obras monumentais, mais eventos espetaculares, mais programa espacial. Eu quero é poesia, arte, futebol de várzea, jabuticaba chupada no pé e entardeceres diante do mar.

Eu não quero mais igrejas, mais templos religiosos, mais padres ou pastores. Eu não quero mais dogmas ou livros de auto-ajuda. Eu quero um mundo que apenas entenda que o amor é a força mais poderosa do Universo.

Eu não quero mais canais de TV, mais variedades de sabor de pizza, mais modelos de celular, mais grifes de roupas, mais drogas ou remédios, mais conteúdo no jornal, mais cursos de pós-graduação, mais marcas de tênis, mais cores de esmalte ou técnicas de embelezamento. Eu quero viver a experiência da simplicidade e do contentamento.

Nosso mundo tem caminhado desesperadamente na direção desse “querer sempre mais”. Desejamos mais direitos, oportunidades e espaços, tal qual desejamos objetos para consumir. E do excesso deste “mais” há um resto produzido, um lixo, que por mais que queiramos, não poderemos reciclar totalmente. Com esse modo de vida estamos alterando perigosamente nosso ecossistema, afundando severamente nas desigualdades sociais e produzindo injustiça e violência.

Através dos movimentos de massa que se espalham pelo mundo atual – talvez não por acaso chamados de Primaveras – estamos tendo a oportunidade de também fazermos uma escolha, fundamental para a sobrevivência desse nosso planeta e seus habitantes. Precisamos urgentemente nos fazer a seguinte pergunta: Vamos continuar querendo mais?

Eu já fiz minha escolha, e sei que muitos também fizeram. Portanto, na minha bandeira está escrito: EU NÃO QUERO MAIS DO MESMO. Eu não quero mais desse mesmo mundo, quero outro mundo. E essa seria a verdadeira revolução para os nossos tempos.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Carta aberta aos meus filhos adolescentes, sobre a onda de movimentos das últimas semanas.


Meus queridos,

Acredito que a única herança deixada por uma mãe ou um pai que realmente fará diferença na vida de um filho, são exemplos e ensinamentos. Por isso, me dediquei a escrever algumas das coisas que aprendi ao longo da minha história. Esta carta será uma de minhas heranças pra vocês.

Aos 18 e 16 anos vocês estão participando pela primeira vez de uma manifestação na rua. Talvez vocês não saibam, mas me orgulhei muito de encontrá-los naquela manifestação da última quinta-feira, ali, naquela mesma avenida que eu já percorri tantas vezes, em manifestações estudantis, de militância política, nas lutas junto ao sindicato dos professores e em eventos do movimento de luta antimanicomial. Assistir o despertar de vocês me fez chorar de emoção.

Eu despertei, precisamente, em 1989 pouco antes de completar 20 anos, quando me filiei ao PSB (Partido Socialista Brasileiro) e conheci a UJS (União da Juventude Socialista). Neste mesmo ano participei ativamente da campanha do Lula, que se candidatava pela primeira vez à Presidência da República, com o apoio de uma coligação chamada Frente Brasil Popular que agregava PT, PSB e PCdoB. Aquele ano mudou para sempre a minha vida, desde então, nunca mais deixei de participar da política da minha cidade e do meu país.

Desejo profundamente que este movimento não seja para vocês apenas uma espécie de micareta sem banda ou carnaval sem trio-elétrico, mas que nele vocês aprendam sobre participação política, sobre democracia e, sobretudo, sobre a força da coletividade.

Ninguém sabe exatamente de onde veio e para onde vão essas manifestações. Alguém já disse que: “quem entendeu essas manifestações é porque não entendeu nada”. Concordo. Não é possível explicá-la ou nomeá-la, mas, apesar disso, decidi escrever aqui algo do que aprendi e vi nos últimos 24 anos e também nos últimos dias.

A primeira coisa a qual preciso alertá-los é sobre um discurso que tem aparecido muito nas manifestações se dizendo a-partidário ou anti-partidário. Vocês já têm uma boa leitura de historia do Brasil e do Mundo e já estudaram que os sistemas políticos que rejeitam ou rejeitaram os partidos políticos, são os governos totalitários e ditatoriais. Nossa democracia está fundamentada na política partidária, que tem sim suas mazelas, mas sem ela, acreditem, seria muito pior. Portanto, isso que vocês estão ouvindo nas manifestações: “Não queremos partidos, queremos unidos” (ou coisa parecida) até que soa bonito, mas é pura bobagem. Não é possível existir um discurso unificado na democracia. Aliás, a beleza da democracia está exatamente em acolher discursos múltiplos e diversos, mesmo que isso gere conflitos. Essa coisa de discurso único é coisa de fascismo e nazismo. Hitler adorava a ideia de ver sua Alemanha unificada e livre dos diferentes (os judeus), não é mesmo?

Outra bobagem é dizer que esse movimento não tem ideologia. Não é possível fazer NADA sem ideologia. Antes de escovarmos o dente pela manhã vestimos uma ideologia, sendo assim, não é possível nos manifestarmos nas ruas sem ideologia. O problema do discurso ideológico é que ele só fica evidente quando destoa da ideologia dominante, então ele pode se manter silencioso, invisível, mas, não se enganem, ele está lá. É como um camaleão, que se camufla com as cores do ambiente. Então, por meio da nossa participação política é possível apontarmos os modelos ideológicos sob os quais nossa sociedade está assentada, para questioná-los e desconstruí-los, se assim for nossa intenção, mas negá-los serve apenas para manter tudo como está. Por exemplo, somos uma sociedade de ideologia machista e consumista, se alguém afirma que defende uma proposta sem ideologia, não tenha dúvida, é porque tal proposta é machista e/ou consumista.

“Nem direita, nem esquerda, nós vamos é pra frente”. Essa é outra afirmação tola. Direita e esquerda, e todas as nuances possíveis para uma ou outra direção, também correspondem a um discurso ideológico e do qual não podemos fugir. É a mesma tolice de se dizer a-político. Toda proposta política tem uma direção, ainda que não nos demos conta de qual é. Uma dica para vocês saberem se uma proposta está à esquerda ou à direita é fazer a seguinte pergunta: “A quem ela protege ou favorece?” Se a resposta for: “Ela favorece à grande maioria da população (geralmente a mais pobre)”. Então vocês já sabem, ela é uma proposta à esquerda. Mas vamos supor que ela favoreça a uma minoria. Nesse caso, vocês precisam fazer uma segunda pergunta: “Essa minoria faz parte de uma elite privilegiada ou de um grupo ou segmento excluído ou desprivilegiado?”. Se a resposta for: “Minoria desprivilegiada, excluída ou marginalizada” então, essa continua sendo uma proposta à esquerda, caso contrário, trata-se de uma proposta à direita.

Vamos exemplificar. Sobre redução do valor a ser pago no transporte público, uma das pautas das manifestações.
Pergunta: “A quem ela favorece?”
Resposta: “A população que usa transporte público”.
Pergunta: “A quem ela prejudica?”
Resposta: “Os donos de empresas de ônibus que terão que reduzir seus lucros e/ou o governo que terá que reordenar suas contas para financiar a redução”.
Pergunta: “Quem é a maioria?”
Resposta: “A população que usa transporte público.”
Então, bingo, a pauta da redução da tarifa de ônibus é uma proposta à esquerda.

Outro exemplo. Sobre a recente aprovação da PEC que prevê regulamentação dos direitos das empregadas domésticas.
Pergunta: “A quem ela favorece?”
Resposta: “As empregadas domésticas.”
Pergunta: “A quem ela prejudica?”
Resposta: “Os patrões”.
Pergunta: “Quem é a maioria?”
Resposta: “Podemos argumentar que, nesse caso, não temos uma maioria, supondo que temos um patrão para cada empregada, então, vamos para a pergunta seguinte.”
Pergunta: “Quem é o grupo mais desprivilegiado?”
Resposta: “As domésticas”.
Portanto, a PEC das domésticas é uma proposta à esquerda.

Sendo assim, políticas que fortalecem e ampliam os serviços públicos que atendem a maioria da população; políticas de distribuição de renda e redução da desigualdade social; políticas que apoiam e defendem minorias excluídas, como gays, deficientes, doentes mentais e indígenas; políticas que protegem e empoderam segmentos marginalizados e alvos de violência, como mulheres e negros; são todas propostas à esquerda.

Já as políticas que favorecem certos segmentos, grupos ou corporações e, que em geral, já fazem parte de setores privilegiados da sociedade, são políticas à direita. Um bom exemplo de proposta à direita, muito discutida atualmente, é a chamada Lei do Ato Médico. A referida lei funciona para manter o poder e o privilégio da classe médica, em detrimento da autonomia de todos os demais profissionais da saúde (enfermeiros, psicólogos, nutricionistas, bioquímicos e fisioterapeutas) que certamente, serão prejudicados. Vendas, privatizações e concessões do setor público à empresas ou grupos privados, também são consideradas propostas à direita. E finalmente, propostas que aprofundam a marginalização e o preconceito sobre segmentos já vulneráveis, também são propostas à direita. Agora vocês já sabem para qual lado tendem propostas como “Cura Gay”e redução da maioridade penal, não é? Resumindo, não podemos ir à frente sem antes escolher esquerda ou direita, afinal, toda proposta política tem um viés, podendo inclusive se radicalizar nos dois extremos, daí o termo, extrema direita ou extrema esquerda.

Tenham cuidado com os discursos e as causas que vocês defendem. Muita gente acha que liberdade de expressão é poder manifestar o que “lhe dá na telha”, seja lá o que for. No campo privado essa premissa pode ter sua função, mas se estamos falando de manifestação pública, política e democrática, a liberdade de expressão precisa ganhar um contorno mais responsável. Nessas manifestações vocês vão precisar falar para além das suas próprias convicções intelectuais, religiosas ou morais, o que, não se enganem, não é fácil de fazer. Por exemplo, existe uma abissal diferença entre levantar a bandeira da redução da passagem de ônibus e outra que defenda a “Cura Gay”, por exemplo. Na primeira, vocês favorecem amplamente a maioria da população, na segunda, pelo simples fato de partirem da premissa de que a homossexualidade seja uma doença, um desvio da normalidade, contribuem para acentuar a descriminação contra os homossexuais, o que, invariavelmente, gera violência e opressão a este segmento. Portanto, mesmo que vocês pensem intimamente que a homossexualidade seja mesmo um desvio, precisam aprender a pensar fora do próprio umbigo para exercer a democracia com responsabilidade. Querem uma dica? Quando uma política interferir em algum grupo ou minoria do qual vocês não façam parte, escutem o que os movimentos organizados de tal minoria têm a dizer. Apoiá-los é sempre a melhor decisão.

Cuidado também com palavras de ordem vazias, do tipo: “não à corrupção”, “sim a vida”. Ninguém é a favor da corrupção. Ninguém é contra a vida. Esses discursos são vazios de conteúdo, e, geralmente, servem apenas para despolitizar e empobrecer o debate político. Portanto, se vocês são contra a corrupção, procurem se informar sobre as ações políticas que possam coibi-la, como defender a pauta da urgência da Reforma Política, por exemplo.

Outro cuidado que precisam tomar se refere aos discursos moralistas que se abatem sobre essas manifestações. São pessoas e instâncias que se indignam contra elas porque atrapalham o trânsito, porque impedem que as pessoas cheguem ao trabalho ou em casa, porque levam caos e violência para as ruas, porque degradam os espaços públicos, porque desmontam a ordem estabelecida. O fato é que NENHUMA manifestação de massas pode acontecer sem que alguma espécie de caos ou violência simbólica se instaure. Que tipo de manifestação de motoristas de ônibus funcionaria se não criasse o caos o trânsito? Que tipo de manifestação de professores funcionaria se não criasse um caos para alunos e pais? E nesse caos, invariavelmente, a violência aparece, sim. Mas é obvio que existe uma diferença enorme entre a violência usada para invadir o Congresso Nacional – numa demonstração simbólica de que a casa que lá está é, ou deveria ser, a casa do povo –, e a violência usada na invasão de lojas para fazer saques ou para depredar do Teatro Municipal de São Paulo. Mas enfim, apesar de ser totalmente contrária a qualquer tipo de violência, é puro moralismo desqualificar um movimento social de massa por protagonizar atos violentos.

Existe outro discurso moralista que é muito perigoso para a democracia. Sob essa bandeira higienista de “limpar o Brasil da corrupção”, fica implícito um discurso perigoso. Já que os políticos e os partidos estão todos contaminados pela corrupção, então só nos resta acabar com eles. O golpe de 1964, que inaugurou um período de ditadura cruel e sangrenta, começou pela cassação de parlamentares e pela dissolução dos partidos políticos. Portanto, precisamos sim, criar mecanismos que evitem, coíbam e punam a corrupção, mas, também precisamos entender que não há como esterilizar a política. Vocês assistiram à trilogia do Senhor dos Anéis, assistimos juntos, aliás, e vocês viram que, durante o filme, muitas personagens são corrompidas pelo Anel do Poder. Mas a tragédia explorada no filme é que é preciso colocar o anel no dedo para saber-se imune ou não ao seu efeito, ou seja, antes de usar o anel ninguém está certo de ser corrompido por ele ou não. Entendo que essa metáfora pode ser transcrita para a política. Não podemos prever quem irá fazer mau uso do poder que lhe conferirmos. Mas, por outro lado, podemos criar mecanismos, estratégias e linhas de fuga que sejam capazes de proteger e resguardar o anel do poder, assim como faz Frodo durante toda a trilogia. Quem sabe nós devamos encarnar Frodo? Vigilantes, inteligentes e destemidos na proteção do Anel do Poder.

Assistam ao filme A Onda (2008) do diretor Dennis Gansel. Vocês verão que a massa é uma força poderosíssima. A favor da democracia ela pode ser uma ferramenta potente, mas para isso, precisa ser mais que um “estouro da boidada”, onde todo mundo repete o que ouve, sem crítica e questionamentos. Cuidado para não servirem apenas como massa de manobra. Não se posicionem contra ou a favor da PEC 37, por exemplo, sem antes saberem o que é a PEC 37. Se interessar a vocês se posicionarem sobre algum tema levantado e sobre o qual vocês não tenham conhecimento, perguntem, procurem saber, leiam, pesquisem os argumentos contra e a favor, para formarem uma opinião consciente. Antes disso, é preferível se abster de tomar uma posição do que seguir apenas o “estouro da boiada”.

Não sejam ingênuos. A polícia estará presente nessas manifestações para tentar restabelecer e manter a ordem pública e para evitar o caos, este é o papel dela. Obviamente que ela pode ser mais ou menos truculenta e violenta (e a nossa polícia é historicamente truculenta), mas não sejam tolos, ela não poderá participar do movimento do mesmo lugar que vocês. E se vocês assistirem ou forem alvo da violência das polícias, não exagerem no drama, saibam que a periferia, os negros, os pobres, os índios, já são alvo dessa violência há muito tempo. Então, essa experiência pode levantar um bom tema para discussão: a desmilitarização da polícia.

Também não esperem que os representantes do poder executivo (prefeitos, governadores ou a presidente) aplaudam de pé o movimento ou se juntem a ele. Mesmo que as concepções e ideologias desses líderes sejam concordantes com as reivindicações propostas, ou com sua própria luta histórica, eles estarão vivendo um incômodo enorme e precisarão entoar discursos e propor intervenções que reduzam tal incômodo. Entendam. Eu desobedeci meus pais inúmeras vezes, mas isso não quer dizer que, por isso, eu não me incomode quando vocês me desobedecem. Eu posso até compreender a desobediência de vocês, conversar e negociar sobre ela, mas estejam certos, ela me causará incômodo e mal-estar. Então não sejam ridículos em esperar que nossos líderes, seus aliados e parceiros, achem tudo lindo e maravilhoso. A diferença é que os lideres mais sábios saberão fazer bom uso dos movimentos, acolhendo as pautas importantes para o Município, para o Estado ou para a Nação. Os tolos criminalizarão os movimentos e tentarão restabelecer a ordem com mão de ferro.

Bem, depois de tudo isso que eu relatei aqui, obviamente que vocês já entenderam que eu sou uma militante de esquerda. Sim, sou, e das que se orgulha das bandeiras que levantou e das lutas que travou. Sendo assim, reitero a vocês que, seja lá para onde seguir esse movimento, é para a esquerda que eu vou continuar minha caminhada. Seguirei sempre em favor da maioria, dos mais pobres, dos mais frágeis e dos mais vulneráveis. E também sei que lá estarão todos os Partidos Políticos que também abraçam a mesma causa que eu, e alguns deles estão na luta há muito tempo. Sei que alguns desses Partidos seguirão inteiros e que outros se partirão mais uma vez. Lá também estarão os políticos que verdadeiramente se elegeram para representar o povo mais pobre e oprimido, com ou sem seus partidos. Lá estarão os movimentos sociais que se preocupam com exclusão, a miséria e as injustiças sociais. Lá estarão os sindicatos, as organizações de classe e os movimentos estudantis que realmente desejam um Brasil mais justo e igualitário. Lá estarão os segmentos religiosos que pregam a liberdade e a justiça social. Lá estará, com certeza, o MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra), maior e mais legítimo movimento social deste país, e que está em marcha desde 1984, quase sempre sem contar com a simpatia da mídia e da população em geral. Lá estarão velhos companheiros de luta e outros tantos que ainda irei conhecer, e desejo que vocês também estejam lá, caminhando em frente, mas não se esqueçam, sempre à esquerda.

Com amor,

Mamãe

terça-feira, 21 de maio de 2013

Política sobre drogas e internação compulsória

(palestra proferida na Semana de Saúde Mental de Ubá /MG, em 21 de maio de 2013)

Atender a demanda por cuidados a pessoas com problemas relacionados ao uso de drogas tem sido um grande desafio para as políticas públicas brasileiras nos últimos tempos, especialmente nos casos onde estão associados a ela: situação de rua, miséria social, exclusão, abandono e marginalidade, invariavelmente resultando naquilo que têm se chamado de “epidemia do crack” ou na formação das “cracolândias”.

Responder a esta questão tem sido um desafio. E as respostas, em geral, têm se sustentado num discurso meramente higienista, cuja pretensão é, simplesmente, limpar certos locais do que a sociedade atual enxerga como lixo: certos usuários de droga, especialmente os de crack. A decisão de vários municípios, seja por intermédio da justiça ou por mera intervenção do poder público, tem sido a de promover a retirada das pessoas desses lugares sob as mais diversas alegações: de que estão infringindo a lei, perturbando a ordem pública ou de que precisam ser deslocadas para locais de assistência e tratamento, por meio das internações involuntárias ou compulsórias. Grande parte dessas intervenções, apesar de muitas vezes travestidas dos mais dignos e decentes atos "humanos" e "cristãos", na verdade, só cumprem a função de limpar nossas cidades daquilo que a sociedade não deseja ver; daquilo que lhe parece incômodo, inútil e sem valor.

E não é a primeira vez que esse tipo de estratégia é utilizada. Num passado não muito distante, que coincide com o início da era capitalista, loucos, bêbados, prostitutas, mendigos, aleijados, e todos aqueles que não serviam para movimentar a roda do sistema capitalista, que não podiam vender sua força de trabalho, foram recolhidos das ruas e encarcerados no Hospital Geral; instituição criada para esse fim. A ordem era sanear as cidades. Esse modelo de intervenção gerou, inclusive, o modelo manicomial para o tratamento dos doentes mentais. Modelo que ao longo das décadas se mostrou desumano, iatrogênico e ineficaz. Modelo criticado e desconstruído pelo movimento antimanicomial, que hoje comemoramos neste evento de 18 de maio.

Há um fato que ninguém discute. O uso e o abuso de substâncias psicoativas em nossa sociedade têm tomado contornos e gerado conseqüências que vem colocando todos diante de um não-saber sobre os rumos e os caminhos a serem tomados, não-saber compartilhado por governos, instituições, políticas públicas, serviços de saúde e organizações governamentais e não-governamentais. Entretanto, mesmo quando admitimos que há um não-saber que atravessa este tema, é possível ainda sim sustentar alguns saberes, dos quais não podemos recuar, saberes que foram conquistados por meio de experiências e transformados em avanços nas políticas e legislações. Ou seja, mesmo que não saibamos exatamente o que fazer em determinadas situações, quando o assunto é o tratamento e o cuidado das pessoas com problemas decorrentes do uso de álcool e outras drogas, ainda sim sabemos exatamente o que não fazer na mesma situação.

Ao desenterrar a internação involuntária - essa nossa velha conhecida no âmbito das propostas de tratamento para as enfermidades mentais - conseguimos tão somente oferecer respostas velhas para problemas novos. Sabemos que as internações involuntárias e compulsórias – antes utilizadas em doses cavalares – não solucionaram o problema dos doentes mentais nem de suas famílias, ou pelo menos não daquelas que pretendiam tratar de seu ente querido e não apenas se ver livre dele. Desenterrar a desgastada internação involuntária é desconsiderar os caminhos trilhados pelas políticas de cuidado aos doentes mentais. Só pra lembrar as internações involuntárias e indiscriminadas, serviram apenas para enriquecer a chamada “indústria da loucura”, condenando os doentes mentais ao isolamento, ao abandono e à exclusão, e ainda sob a justificativa que isso era feito em nome do ‘tratamento’ e do ‘bem’ deles, já que não teriam capacidade de escolha.

Nossa experiência de trabalho tem mostrado que a internação involuntária não é capaz de tratar ninguém, ela pode apenas, na melhor das hipóteses, se utilizada de maneira parcimoniosa, respeitosa e criteriosa, numa situação pontual e específica (observando o caso a caso) possibilitar uma intervenção primeira, pois que, o início do tratamento de fato, este sim, só será possível com a implicação e o desejo do sujeito e em locais ou situações onde o apelo comunitário e a inserção social sejam considerados.

É claro que a fala sofrida e emocionada de pais e mães desesperados e impotentes diante do vício do filho, nos fazem balançar em favor de medidas extremas como essa. No entanto, o que não é dito, é que passado o alívio dos primeiros dias ou semanas da internação considerada ‘salvadora’, os pais vão perceber que o filho deles não recebeu nenhuma espécie de vacina ou armadura que o proteja definitivamente da compulsão pelas drogas, e o ciclo então, tende a se repetir indefinidamente, ou pelo menos até que o tratamento ocorra de fato.

Sendo assim, precisamos ressaltar que a internação - involuntária ou compulsória - não será o milagre que todos esperamos para solucionar a questão das drogas. Também é necessário que se diga que o índice de fracasso se torna muito grande quando se entende que tratar as pessoas que apresentam problemas relacionados ao uso de drogas se resume apenas em promover a abstinência, e a qualquer preço. Nenhum tratamento ou intervenção que se pretenda humanizada, respeitosa, ética e, portanto eficaz, se conquista à revelia do sujeito, passando por cima de seus desejos, escolhas e singularidades, ainda que a nosso ver, estranhas e atrapalhadas.

Enfim, existem alguns avanços conquistados no âmbito das políticas de saúde mental que não podem retroceder, sob nenhuma justificativa, nem mesmo pelo apelo emocionado de pais e mães. Aquilo que foi superado pela sua ineficácia e ineficiência, pela iatrogenia gerada, pela desumanidade e desrespeito a direitos mínimos de dignidade e cidadania e pelo reforçamento de estigmas e preconceitos, não pode ser novamente pensado como uma estratégia possível e plausível. Já vimos este filme antes, o roteiro é o mesmo, agora com outros atores. Eram os ‘loucos’, agora os ‘drogadictos’.

Sendo assim, a internação tradicional, especialmente aquelas motivadas por intervenções involuntárias ou compulsórias, apesar de parecer, não é a solução para os problemas relacionados ao uso e abuso de álcool e outras drogas. E isso não quer dizer que as soluções possíveis sejam mais simples, ao contrário, são muito mais complexas e exigem a criação de uma rede de cuidados, com os vários setores das políticas públicas (saúde, educação, assistência social, segurança pública, esporte, lazer, cultura, justiciário) e com diversos tipos de aparatos, intervenções, instâncias e estratégias.

Infelizmente, muitos municípios estão optando pelas estratégias meramente higienistas para intervir na questão do uso de drogas e elas tem se resumido a dois tipos de intervenção: as que espantam e as que recolhem. As que espantam, vão apenas fazer com que essas pessoas migrem para outro lugar, obviamente que para um lugar semelhante ao anterior. As que recolhem (compulsoriamente ou não) também acreditam que o problema é solucionado quando o levamos para outro local, só que dessa vez apostam em instituições de amparo social ou clínicas de recuperação. Mas a verdade é que o resultado dessas estratégias é semelhante àquele que conseguimos ao limpar a sala de estar varrendo a sujeira pra debaixo do tapete, ou seja, maquiagem provisória.

As intervenções baseadas no recolhimento e na internação, seja involuntária ou compulsória, se sustentam num princípio clássico do tratamento em saúde, de que é preciso isolar para tratar. É claro que tal princípio é bem adequado para tratar daquelas doenças onde a contaminação ou o contágio façam parte dos sintomas. Mas em se tratando de uma doença onde o isolamento e o prejuízo social já estão instalados, sendo tão nocivos quanto a própria doença, será que o “isolar para tratar” é tão eficaz?

Mais uma vez temos sido tentados a criar novos muros, muros que separem, delimitem e isolem, a primeira vista em nome do tratamento, mas também em nome daquilo que tememos, do que não compreendemos, não aceitamos e não sabemos como lidar. Fizemos assim com os doentes mentais, criamos muros que nos separavam deles, para depois de muitas décadas entendermos que, na verdade, deveríamos ter criado pontes. E afinal, concluímos que as pontes têm sido infinitamente mais eficazes para tratar que os muros. O sucesso dos CAPS, das Residências Terapêuticas, dos CC são a prova disso. Sendo assim, no caso das políticas sobre drogas, seria uma pena gastarmos tempo, material humano e recursos públicos com os muros que já sabemos, mais cedo ou mais tarde, demonstrarão seu fracasso (na verdade, já estão demonstrando).

Precisamos apostar nas pontes e nas redes. Pontes que aproximam ao invés de espantar e redes que acolhem ao invés de recolher. Imagino que em termos arquitetônicos deva ser muito mais difícil construir pontes do que muros, assim como é muito mais difícil aproximar do que espantar. Acolher também é bem mais trabalhoso que recolher, porque acolher leva em conta o querer de quem está sendo acolhido, ao passo que o recolher só leva em conta o querer de quem recolhe.

Voltando ao problema das cracolândias, há uma pergunta desafiadora que talvez seja interessante para pensar este fenômeno. Porque existem cracolândias? Porque não ouvimos falar de maconholândias, cocainolândias ou ecstasyitolândias?

Trata-se de uma pergunta realmente intrigante que nos faz pensar, dentre outras coisas, sobre o lugar social que o crack vem ocupando no Brasil. Apesar de sabermos que o uso do crack está presente nas diversas classes sociais, é no abandono social e nas ruas que ele tem mostrado sua face mais perversa. Não há justificativa para defendermos a tese de que as cracolândias são formadas apenas pelo poder devastador e desagregador da química do crack, com se o crack fosse o único responsável pelas cracolândias. É muito mais realista pensar que um certo tipo de população já excluída pela sociedade, seja pela miséria, pelo abandono, pelo alcoolismo ou pela dependência de outras drogas, fez do crack "a sua droga", numa tentativa de remediar o próprio sofrimento, e para isso precisaram criar um lugar delimitado na pólis. As cracolândias, na verdade, são frutos de políticas preconceituosas, excludentes, moralistas e da tão anunciada "guerra contra as drogas". Enquanto continuarmos em "guerra contra as drogas", as cracolândias funcionarão como um território de refugiados, como um gueto para os excluídos.

Não faz muito tempo que a questão do abuso ou dependência de drogas ilícitas deixou de ser “caso de polícia”, pelo menos no âmbito legal. Para sermos mais específicos é a partir da lei n° 11.343/2006 que traficante e usuário de substâncias ilícitas são colocados em territórios distintos. Enquanto o traficante continua sendo problema de segurança pública, o usuário passa a ser preocupação das políticas de saúde.

Apesar de contarmos com esse avanço legal importante que descriminaliza o usuário ou dependente (e que, infelizmente, corre o risco retroceder) o uso de drogas ilícitas ainda permanece envolto em uma nuvem de preconceitos e mitos, que contaminam nossa forma de abordar o tema, em especial quando o assunto é tratamento. Infelizmente, ainda enxergamos uma associação direta entre o uso de drogas e delinqüência ou criminalidade, visão exaustivamente reforçada pela mídia.

Isso tem gerado uma certa confusão quando o assunto é oferecer tratamento para o sujeito que se encontra adoecido pelo uso de drogas. Além de vítima da doença, ele se torna também vítima do preconceito e da retaliação da sociedade, o que intensifica os danos, ainda mais quando o sujeito já se encontra em estado de vulnerabilidade social.

Essa nuvem de preconceitos que envolve o tema precisa ser dissipada, para que não façamos política de saúde utilizando estratégias de guerra. Sabemos que as guerras produzem sempre muitas vítimas e muito poucas soluções, e nesse caso, as vítimas tem sido aqueles para os quais as políticas deveriam oferecer cuidado: os drogadictos.

É importante reiterar: não se faz política de saúde utilizando estratégias de guerra, pelo menos, não quando a intenção é democratizar, humanizar e promover a inserção social, diretrizes fundamentais da política de saúde mental que o SUS vem implementando ao longo desses anos. Por isso, precisamos abolir formas de tratamento que se utilizem de verbos do tipo: combater, reprimir, tutelar, capturar, aprisionar, perseguir, ameaçar, cercear, coibir, atacar ou amedrontar. Técnicas muito úteis quando se está numa frente de batalha. Por outro lado, precisamos reforçar estratégias de tratamento que façam uso dos verbos: cuidar, acolher, compreender, abrigar, escutar, oferecer, apaziguar, esperar, confiar, apoiar e possibilitar, essas sim, fortalecedoras de laço e produtoras de vida.

Muito se fala sobre a morte como destino do sujeito adoecido pelo uso de drogas, mas o que não se diz é que a morte que realmente ameaça esse sujeito é a “morte social”. Esta sim é a mais perigosa, a que chega primeiro e a que, se não cuidada em tempo, pode provocar a morte do corpo. Isso nos indica que em se tratando de política de saúde não estamos, ou pelo menos não deveríamos estar, em guerra contra as drogas ou contra aqueles que as utilizam, já que esse é o caminho mais rápido para acelerarmos tal “morte social”.

É de Slavo Zizek a seguinte afirmação: "É bem verdade que vivemos numa sociedade de escolhas arriscadas, mas apenas alguns têm a escolha, enquanto outros ficam com o risco". Na questão do uso de drogas isso fica muito claro. Apenas os membros da "sociedade de bem" fica com as escolhas, mesmo que porventura arriscadas. Nós podemos escolher entre vodka ou cerveja, se vamos tomar remédios para dormir ou para nos livrar do pânico cotidiano, podemos escolher se nossa balada vai ser movida a "doce" ou "bala". Mas os frequentadores das cracolândias ou os que estão caminhando para ela, são exatamente os que perderam suas possibilidades de escolha e ficaram apenas com o risco.

Diante dessa realidade, o único caminho sensato para se pensar as cracolândias seria no sentido de reduzir os riscos que seus frequentadores enfrentam e possibilitar-lhes escolhas, sem esquecer que oferecer-lhes escolhas não é escolher por eles. Entretanto, sabemos que em muitos casos, a degradação subjetiva pode ter lhes prejudicado severamente a capacidade de fazer escolhas. Podemos, nesses casos, criar estratégias que nos possibilitem escolher com eles, mas jamais à revelia deles, como se tem feito. Também não devemos ofertar a essas pessoas apenas dois caminhos possíveis: com drogas ou sem drogas. É fundamental também considerar possibilidades que incluam viver - com dignidade, com todas as suas potencialidades e contradições - apesar das drogas. E sem nenhuma hipocrisia, tal como faz a maioria de nós.

Freud dizia que não existe cura para o desamparo humano, ou seja, em se tratando da espécie humana haverá sempre dores, sofrimentos e angústias dos quais não poderemos escapar completamente. A psicanálise admite que ao longo da história, o homem tem se utilizado de substâncias psicoativas, como medidas paliativas para lidar com o mal-estar da existência. Usar drogas, portanto, faz parte da cultura humana desde sempre. No entanto, assistimos o fenômeno do uso de drogas atingindo contornos nunca antes vistos, especialmente na sociedade capitalista ocidental, onde ser tornou mais uma mercadoria a ser consumida. Sem falar que vivemos numa era que acredita ser possível tratar qualquer conflito, angústia, medo, dor e tristeza, com alguma droga prescrita pelo médico. E a indústria farmacêutica tem feito sua parte ofertando drogas para todo tipo de mal estar. Existem drogas para acelerar e desacelerar, para estimular e para relaxar, para dormir e para manter desperto, para desangustiar, para concentrar, para alegrar, para tirar nossos medos... Não é curioso? Estimulamos como nunca o uso de drogas farmacêuticas para anestesiar nossas dores e mal-estares e nos enchemos de arrogância e preconceito quando vamos lidar com aqueles que, foram capturados pela dependência de outras drogas, só porque não estão na prateleira da farmácia.

Mas, é importante saber que existe outra saída para lidar com nossos mal-estares existenciais. Freud dirá que apesar de não podermos erradicar completamente nosso desamparo, podemos administrá-lo em favor da coletividade, do bem-estar comum. Podemos promover a gestão desse desamparo e desse mal-estar por meio da nossa ligação com os outros, pelos laços sociais, pelas redes e pontes que somos capazes de criar, manter e fortalecer. Em última análise, para usar os termos de Freud, precisamos amar para não adoecer.

Portanto, para finalizar, coloco aqui uma questão levantada nos idos dos anos 70 e 80, mas que ainda é atualíssima: queremos construir muros ou optaremos por construir pontes e redes? Nesse de 18 de maio, mais uma vez, escolha é nossa.