sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

O desafio das drogas

Por Rita de Cássia de A. Almeida
Trabalhadora da Rede de Saúde Mental do SUS
Publicado no Jornal O Tempo em 14/11/2009


A questão das drogas na atualidade é emblemática – especialmente quando regada pela chamada “epidemia do crack” e seus desdobramentos – e se tornou para a saúde pública um enorme desafio. Sou uma trabalhadora da rede de saúde mental do SUS e vivo cotidianamente esse desafio; minha especialidade é “botar a mão nessa massa”.

É preciso ter coragem para dizer que a questão do tratamento da compulsão pelo álcool e outras drogas é cercada de muitos fracassos, fracassos ainda maiores quando se concebe como única forma de tratamento a abstinência; de qualquer maneira e a qualquer preço. Sabemos que diante de problemas graves e de difícil solução, especialmente em situações novas, é comum que procuremos conforto em soluções que já nos são conhecidas. Assim, sustenta-se a idéia de que a internação involuntária seria a milagrosa e necessária intervenção que resolveria o problema das pessoas adoecidas pelo uso de substâncias psicoativas.

Entretanto, ao desenterrar essa nossa velha conhecida no âmbito das propostas de tratamento para as enfermidades mentais, o que conseguimos é, tão somente, oferecer respostas velhas para problemas novos. É preciso dizer que as internações involuntárias – outrora utilizadas em doses cavalares com os doentes mentais – não solucionaram o problema deles, nem de suas famílias, pelo contrário. Também é importante que se diga que uma internação involuntária não é capaz de tratar ninguém, ela pode apenas, na melhor das hipóteses – se utilizada de maneira parcimoniosa, respeitosa e criteriosa – possibilitar uma intervenção primeira, pois que, o início do tratamento de fato, só será possível com a implicação e o desejo do sujeito e em locais ou situações onde a participação da família, o apelo comunitário e a inserção social sejam considerados.

Mas é claro que a fala sofrida e emocionada de pais e mães desesperados e impotentes diante do vício do filho, nos fazem concordar com medidas extremas como essa (e às vezes concordamos). No entanto, o que nem sempre é dito, é que passado o alívio dos primeiros dias ou semanas da suposta ‘salvadora’ e ‘milagrosa’ internação, os pais vão perceber que o filho deles não recebeu nenhuma espécie de vacina ou armadura que o proteja da compulsão pelas drogas, e o ciclo então tende a se repetir indefinidamente, ou pelo menos até que o tratamento ocorra de fato.

Defendemos, portanto, que a internação tradicional parece, mas não é a solução para os problemas relacionados à dependência de sustâncias. E isso não quer dizer que as soluções possíveis sejam mais simples ou baratas, ao contrário, são muito mais complexas e exigem uma grande diversidade de investimentos, aparatos, intervenções, instâncias e estratégias. E nessa direção, muita coisa interessante e verdadeiramente inovadora está acontecendo. Nos CAPS (centros de atenção psicossocial) e nos CAPS AD (álcool e drogas) espalhados pelo país. Pelas mãos dos Redutores de Danos que oferecem cuidado para os que só tem a rua como clínica possível. Nos projetos governamentais e não governamentais que ocupam comunidades carentes para oferecer acesso à educação, esporte, lazer e cultura àqueles com poucas oportunidades de escapar do jugo das drogas.

Concluindo, aumentar a oferta de leitos para a internação e/ou facilitar o mecanismo da internação involuntária é uma resposta simplista demais, pobre demais e, sobretudo ultrapassada quando a intenção é responder de maneira eficiente a esse grave problema de saúde pública. Nosso desafio é muito maior e para enfrentá-lo toda a sociedade precisa “colocar a mão nessa massa”.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O SUS e o desafio imposto pelas drogas

Por Rita de Cássia de A. Almeida
Trabalhadora da Rede de Saúde Mental do SUS


Como já era previsível, toma a cena a emblemática questão das drogas, especialmente temperada pela chamada: “epidemia do crack” e seus desdobramentos. As políticas de saúde, por sua vez, têm sido especialmente convocadas a dar respostas para esta realidade que se tornou um enorme desafio para o SUS nas suas diretrizes e práticas de tratamento e cuidado.

O fato que ninguém discute é que o uso e o abuso de substâncias psicoativas em nossa sociedade têm tomado contornos e gerado conseqüências que vem colocando todos diante de um não-saber sobre os rumos e os caminhos a serem tomados, não-saber compartilhado por governos, instituições, políticas públicas e organizações governamentais e não-governamentais no mundo todo. Entretanto, mesmo quando admitimos que há um não-saber que atravessa este tema, é possível ainda sim sustentar alguns saberes, dos quais não podemos recuar, saberes que foram conquistados por meio de experiências e transformados em avanços nas políticas e legislações. Ou seja, mesmo que não saibamos exatamente o que fazer em determinadas situações, quando o assunto é o tratamento e o cuidado dos problemas decorrentes do uso de álcool e outras drogas, ainda sim sabemos exatamente o que não fazer na mesma situação.

No entanto, é preciso muita coragem para admitir os fracassos e não-saberes em torno desse desafio que o SUS está enfrentando, como fez publicamente e em horário nobre o coordenador nacional da saúde mental. A posição mais confortável e digamos mais ‘pop’, no entanto, é a dos que se dizem doutores e especialistas no assunto, que do alto da pompa do seu todo-saber apresentam uma ‘inovadora’ e ‘milagrosa’ solução para o problema que se impõe: a internação involuntária.

Ao desenterrar essa nossa velha conhecida no âmbito das propostas de tratamento para as enfermidades mentais, o que tais ‘especialistas’ conseguem é tão somente oferecer respostas velhas para problemas novos. E o que eles não dizem é que as tais internações involuntárias – antes utilizadas em doses cavalares – não solucionaram o problema dos doentes mentais nem de suas famílias, ou pelo menos não daquelas que pretendiam tratar de seu ente querido e não apenas se ver livre dele. O que também não é dito é que uma internação involuntária não é capaz de tratar ninguém, ela pode apenas, na melhor das hipóteses, se utilizada de maneira parcimoniosa, respeitosa e criteriosa, possibilitar uma intervenção primeira, pois que, o início do tratamento de fato, este sim, só será possível com a implicação e o desejo do sujeito e em locais ou situações onde o apelo comunitário e a inserção social sejam considerados.

Mas é claro que a fala sofrida e emocionada de pais e mães desesperados e impotentes diante do vício do filho, nos fazem concordar com medidas extremas como essa. No entanto, o que também não é dito, é que passado o alívio dos primeiros dias ou semanas da internação ‘salvadora’ e ‘milagrosa’, os pais vão perceber que o filho deles não recebeu nenhuma espécie de vacina ou armadura que o proteja definitivamente da compulsão pelas drogas, e o ciclo então, tende a se repetir indefinidamente, ou pelo menos até que o tratamento ocorra de fato.

Sendo assim, o que é preciso ser ressaltado com todas as letras é que a internação involuntária não será o milagre que todos esperamos para salvar nossos filhos, pais, mães, maridos ou esposas das garras do maior 'demônio' da atualidade: as drogas. (frase para ser lida com uma dose grande de ironia)

Também é necessário que se diga que o índice de fracasso se torna muito grande quando se entende que tratar as pessoas que apresentam problemas relacionados ao uso abusivo e nocivo de álcool e outras drogas se resume apenas em promover a abstinência, e a qualquer preço. E que nenhum tratamento ou intervenção que se pretenda humanizada, respeitosa, ética e, portanto eficaz, se conquista à revelia do sujeito, passando por cima de seus desejos, escolhas e singularidades, ainda que a nosso ver, estranhas e atrapalhadas.

Em alto e bom tom é necessário avisar aos desavisados que se os especialistas decidem por desenterrar a desgastada e ineficaz internação involuntária, ou é porque desconhecem os caminhos trilhados pelas políticas de cuidado aos doentes mentais – e, neste caso, devemos duvidar de sua tão honrosa especialidade – ou os motivos são outros que desconhecemos... Ou será que são os mesmos de outrora? Só pra lembrar aos esquecidos ou avisar aos desavisados, as internações involuntárias e indiscriminadas, enriqueceram a chamada “indústria da loucura”, condenando os doentes mentais ao isolamento, ao abandono e à exclusão, tudo, é claro, em nome do ‘tratamento’ e do ‘bem’ deles. (mais ironia, por favor).

Existem alguns avanços conquistados no âmbito das políticas de saúde mental que não podem retroceder, sob nenhuma justificativa, nem mesmo pelo apelo emocionado de pais e mães. Aquilo que foi superado pela sua ineficácia e ineficiência, pela iatrogenia gerada, pela desumanidade e desrespeito a direitos mínimos de dignidade e cidadania e pelo reforçamento de estigmas e preconceitos, não pode ser novamente pensado como uma estratégia possível e plausível. Já vimos este filme antes, o roteiro é o mesmo, agora com outros atores: eram os ‘loucos’ agora os ‘drogadictos’.

Por outro lado, longe dos olhos dos doutores especialistas que sabem tudo e da mídia ávida por nos comover com a desgraça alheia, muita coisa interessante e verdadeiramente inovadora está acontecendo. Os CAPS ad: serviços que se propõem a oferecer tratamento humanizado, aberto, de caráter comunitário, vinculado a uma rede de atenção em saúde e assistência integral, com propostas de apoio familiar, exercício de cidadania e inserção social. Os redutores de danos: que estão nas ruas e esquinas, nos lugares onde ninguém ousa chegar, oferecendo seus ouvidos, seu olhar e seus cuidados para os que só tem a rua como clínica possível. Projetos governamentais e não governamentais: que ocupam comunidades carentes, sobem os morros e as favelas e lidam ‘cara a cara’ com o tráfico e a criminalidade, para oferecer acesso à educação, esporte, lazer e cultura àqueles com poucas oportunidades de escapar do jugo das drogas. E inúmeras outras experiências exitosas, desenvolvidas por entidades e instituições diversas, e que lamentavelmente não aparecerão na mídia em horário nobre, afinal, o que dá audiência e seriedade científica ao desenvolvimento do tema são os doutores especialistas em seus jalecos impecavelmente brancos, e se estão brancos é porque nunca estiveram com a “mão na massa”.

Mas nós, trabalhadores e defensores do SUS e de suas políticas, participantes e atores dessas outras experiências que dificilmente serão colocadas na mídia, nós os especialistas em botar a “mão na massa” esperamos que a sociedade entenda que a internação tradicional parece, mas não é a solução para os problemas relacionados ao uso e abuso de álcool e outras drogas. E isso não quer dizer que as soluções possíveis sejam mais simples, ao contrário, são muito mais complexas e exigem uma grande diversidade de aparatos, intervenções, instâncias e estratégias.

Esperamos que o SUS e seus atores e gestores comprometidos com o fortalecimento e a defesa de uma saúde pública, gratuita e de boa qualidade, consigam enfrentar este enorme desafio com avanços e não retrocessos. Contudo, sabemos que só conseguiremos vencê-lo com muito trabalho, dedicação, esforço, enfrentamentos, estudos e discussões. E sabemos também que os doutores especialistas que sabem tudo não estarão lá para colocar a mão nessa massa.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Em tempos de religiões pervertidas

Rita de Cássia de A Almeida
rcaalmeida@ig.com.br

É numa tentativa de dar sentido ao inexplicável, ao mistério que ronda sua experiência de estar neste mundo que o homem inventa a religião. Diante de suas limitações e atormentado pelas privações da existência mundana o homem busca o infinito: Deus. A religião seria um caminho, um modo de se encontrar e de se comunicar com Ele.

As religiões têm, portanto, a função de transcender a matéria, o imediato, a carne, a materialidade. É um modo que encontramos de nos libertarmos das exigências e limitações de nosso corpo material. Sendo assim, qualquer religião que prometa ser meio para alcançar bens materiais, que se ofereça como ponte de acesso a objetos-mercadoria ou que, pior ainda, meça a fé de alguém pelo tanto de dinheiro ou bens que ela é capaz de ofertar é, antes de tudo, uma religião pervertida.

Não há dúvidas de que o acesso a uma vida digna e minimamente confortável é um direito que convém a todos, mas isso não é função das religiões, para isso temos (ou deveríamos ter) a política. Todavia, em tempos de políticas pervertidas, explodem também religiões pervertidas. Religiões que se aproveitam da fragilidade social e da falta de perspectiva dos cidadãos, que não se sentem representados e escutados na polis, para atribuírem a Deus responsabilidades que seriam dos homens.

E nessa perversão generalizada, não faltam igrejas que vendem esperanças de dias melhores – tanto na terra quanto nos céus – transformando fé em mercadoria, degradando a noção de religiosidade e sagrado, entendendo-as como experiências que podem ser compradas e vendidas.

Na Bíblia encontramos uma passagem – relatada pelos quatro evangelistas – na qual Jesus, indignado e enfurecido, expulsa os mercadores do templo, acusa-os de transformarem uma casa de orações em um “covil de ladrões”. Se acaso Jesus visitasse hoje os templos erigidos em seu nome, certamente, teria muitos mercadores a expulsar e muitos motivos para se enfurecer. Também o ouviríamos dizer muitas vezes: “Dai a Cézar o que é de Cézar e a Deus o que é de Deus”.

sábado, 3 de outubro de 2009

O pessimista é, sobretudo, um chato.

Por: Rita de Cássia de A. Almeida

Tenho me dado conta de que o pessimista é, sobretudo, um sujeito chato. Aquele do tipo que assiste a um jogo da seleção brasileira do seu lado e fica azarando a partida toda, só vê defeito em tudo. Se a seleção ganha, ele pode até comemorar, com algumas ressalvas é claro, mas se, por infelicidade sua, a seleção perde, haja paciência, ele não vai se cansar de repetir tudo que havia previsto com sua bola de cristal azarenta.

Com a vitória do Rio de Janeiro para sediar das olimpíadas de 2016, os pessimistas de plantão já estão dando seus palpites. Como verdadeiros cavaleiros do apocalipse, eles já anunciam as desventuras dessa investidura brasileira. Já imaginam os seqüestros, as balas perdidas e a criminalidade fazendo pano de fundo para os eventos e festividades. Também usam como argumento o fato do Rio de Janeiro ter muitas coisas mais importantes para se preocupar, não devendo estar na sua lista de prioridades um evento esportivo dessa envergadura.

Os pessimistas não percebem que uma Olimpíada pode modificar desde já a realidade de um lugar, de uma cidade e de um país. Não entendem que se o Rio precisa mudar sua realidade social, reinventar a paz e fortalecer seu tão abalado posto de “cidade maravilhosa”, então não existe motivação ou investimento melhor do que esse. Políticos, governantes, investidores, organizações e/ou instituições que viraram as costas para o Rio, apostando que abandonar o barco seria a melhor saída, agora terão que rever suas posições e fazer novamente dessa cidade a capital do país, ainda que seja a capital esportiva.

Grande parte do sucesso de Lula se deve ao fato dele fazer parte do time dos otimistas. Dos que apostam nas vitórias e nos acertos. Dos que não admitem perder o jogo antes de iniciada a partida. Pessoas de sucesso pensam assim.

Mas, lembrando novamente daquele amigo chato que assiste futebol com você, acredito que ele não se importe muito com o resultado da partida. O que ele quer mesmo é, no final das contas, te dizer aquela frase insuportável: “Eu não disse?” E o pior de tudo é que ele sempre se sentirá autorizado a utilizar tal frase, porque, mesmo que o time ganhe, ele sempre encontrará algum motivo para botar defeito, para te dizer que não foi tão perfeito assim (e como perfeito nunca será mesmo...). Na verdade o pessimista é um chato porque não está preocupado com o desdobramento das coisas; o que ele quer mesmo é ter sempre razão.

http://twitter.com/rcaalmeida

sábado, 22 de agosto de 2009

Sem limites

Rita de Cássia de A Almeida
psicanalista


Não é novidade que é o banho da cultura que nos veste, que possibilita dar algum contorno para a nossa animalidade, para o real que se abate sobre nós. É isso que nos faz humanos, que nos permitiu colocar a palavra onde só havia ato e que, em última análise, nos protege da barbárie. Tal contorno estabelece para nós um limite, um limite que não devemos ultrapassar, sob o risco de extrapolarmos nossa própria condição de existência e de romper com aquilo que nos faz humanos.

Manter-nos nesse limite da humanidade é tão importante que mesmo em tempos de guerra, por exemplo, onde os maiores horrores são vivenciados, vários tratados internacionais vigoram com o objetivo de manter um mínimo de ética e de respeito ao ser humano. O fato é que sem nossas vestimentas culturais e simbólicas, ficamos a mercê da selvageria.

E foi isso que se viu no final da noite do último domingo. Quem acreditava já ter visto de tudo na TV, ficou estarrecido com as cenas mostradas em um reality show. A chamada “prova do estômago” exibiu cenas bizarras dos participantes comendo, dentre outras “iguarias”, ovos galados, ou seja, com um feto dentro, na tentativa de manterem suas equipes e, portanto, a si mesmos, com chances de vencer a disputa.

A selvageria à qual me refiro não é resultante do simples fato de se comer o feto cru de uma galinha. Em certas culturas, pode ser que esse tipo de alimento seja apreciado e culturalmente incorporado, entretanto, esse não é o caso. Sendo assim, vivenciada pelos participantes como um mergulho profundo na selvageria, essa experiência grotesca, violenta e de extremo mau gosto mostrada num programa de televisão, nos leva a perguntar: o que se é capaz de fazer por 500 mil reais? E a triste e lamentável conclusão que chegamos é que, em um mundo dominado pelo capital, por 500 mil reais é possível comprar e vender até mesmo a humanidade de alguns. Por esse valor ou por outros até menores, encontramos quem extrapole qualquer limite, inclusive os limites mais fundamentais; aqueles que nos fazem pertencer à raça humana.