segunda-feira, 18 de maio de 2009
18 de maio: um dia para repensar.
escrito em maio de 2009
A história do tratamento das doenças mentais no ocidente confunde-se com uma história de abandono, exclusão, desrespeito e violência. Entendida como lugar do avesso ao homem racional, a loucura seguiu sendo compreendida como algo a ser excluído, abolido e alijado, tanto do meio social quanto para fora do próprio homem. No Brasil, essa história vem tomando novos contornos nas últimas décadas. Em 1987, num 18 de maio como hoje, instaurou-se em nosso país um movimento social importantíssimo – O Movimento Nacional de Luta Antimanicomial – que tinha como horizonte uma mudança na forma de tratar as doenças mentais e na maneira de olhar para a loucura, compreendendo-a para além de uma doença ou déficit, mas como manifestação radical de uma diferença. A bandeira desse movimento sempre foi buscar novas formas de cuidado e tratamento que conseguissem romper com o modelo tradicional.
O Movimento Nacional de Luta Antimanicomial alcançou grande força política, agregando técnicos de saúde mental, usuários e familiares, todos mobilizados pelo lema: “Por uma sociedade sem manicômios”. Os manicômios se figuravam como os representantes de um modelo excludente, desumano e discriminatório de oferecer tratamento aos doentes mentais. Instituições nas quais os pacientes, em geral, entravam para nunca mais sair. Hoje as comemorações do 18 de maio continuam a acontecer em todo Brasil. As bandeiras de agora não são as mesmas de antes, já que as mudanças propostas por esse movimento foram contempladas em lei – a lei 10.216 de 2001 – e encampadas pelo SUS. Novos dispositivos e formas de cuidado e tratamento tem sido implementados, estimulados e financiados pela Política Nacional de Saúde Mental no intuito de superar o modelo tradicional, oferecendo tratamento humanizado, aberto e com visas à inserção social.
Sendo assim, o verbo mais conjugado pelo lema deste 18 de maio continua sendo SUBSTITUIR. Substituir os muros por portas abertas; substituir a exclusão pela inclusão; substituir a perda de direitos civis e sociais pelo exercício da cidadania; substituir as longas internações por internações curtas e pontuais apenas nos momentos de crise; substituir o abandono pelo acolhimento na família e comunidade; substituir o silêncio pela palavra, pela criação e pelo trabalho; substituir a discriminação pelo respeito às diferenças; substituir o preconceito pelo entendimento; enfim, substituir o isolamento pela partilha.
Desde 1987, muita coisa mudou no âmbito do que hoje se entende por saúde mental. Mudaram-se teorias, políticas, instituições, legislações, discursos, formas de abordagem, metodologias, práticas e até mesmo construções ideológicas. Sabe-se, no entanto que em qualquer mudança de paradigma a última coisa a mudar são as mentalidades. Sendo assim, ainda mantemos em nós muitos “pensamentos manicomiais”. Não é incomum sermos tomados, por exemplo, pela fantasia de criar uma ilha isolada do mundo e o mais distante de nós possível, para a qual destinaríamos todos aqueles ou tudo aquilo que nos incomoda, nos abala, nos adoece, nos atormenta e nos tira do eixo. Um lugar geograficamente delimitado para onde destinaríamos tudo o que nos é estranho, tudo o que tememos. Ou invertendo a lógica, também pensamos em criar uma redoma segura e hermética, na qual poderemos viver seguros e despreocupados das imperfeições do mundo.
Transcendendo, portanto, o que o 18 de maio tem de importante para os progressos nas políticas de saúde mental no país, entendo que esse possa ser um momento oportuno para rever nossas mentalidades, compreendendo que a maneira mais humana e acertada, ainda que não a mais fácil, de lidarmos com as diferenças, os tormentos e os incômodos diários deva ser dialogando e convivendo com eles, para assim produzir novas formas de relação, convivência e existência.
terça-feira, 5 de maio de 2009
A família é a vilã?
Dias atrás uma revista de circulação nacional publicou uma matéria intitulada: A família é a vilã. Tal matéria tratava de discutir o tema abordado em uma novela que, segundo a revista, deixa a entender que os males ou desacertos dos filhos são resultantes da educação oferecida por seus pais. Esse é um assunto delicado, sendo fácil cair em conclusões extremadas e equivocadas. Num extremo toma-se os pais como únicos e exclusivos responsáveis pelos atos de seus filhos, num outro, entende-se que os filhos escolhem caminhos que dizem muito pouco da forma como foram educados por seus pais. A pressa em demonizar a família, no entanto, é tão equivocada quanto a pressa em absolvê-la.
É fato que existem relações familiares notoriamente desastrosas o que, muito provavelmente, não se dará sem conseqüências igualmente desastrosas, no entanto, não se pode afirmar com certeza que essa ou aquela atitude dos pais provocará esse ou aquele comportamento dos filhos. Também é bom que se saiba que nenhuma relação familiar acontece sem alguma espécie de trauma ou desencontro. Sendo assim, não existe uma maneira perfeita de educar os filhos, ou seja, isenta de traumas e, sobretudo, não existem manuais. Uma coisa, entretanto, é fundamental: criar filhos incorre numa grande responsabilidade, o que não é o mesmo que oferecer um óvulo, um espermatozóide ou um útero para gerá-los.
Para assumir a tarefa de educar um filho é necessário ter as qualidades de um bom afinador de pianos. Ele precisa amar o instrumento e a música; além disso, precisa de tempo, dedicação e paciência; precisa de ouvidos atentos e sensíveis e, também, saber que não existem dois pianos iguais. Ou seja, educar uma criança demanda muita, muita dedicação. Dedicação para amá-la, para cuidar dela, para repreendê-la, para observá-la, para escutá-la e para orientá-la, e esta função os pais não podem delegar a ninguém, nem para a escola, nem para as instituições religiosas, nem para os livros, nem para os amigos, ainda que estas e outras instâncias possam também participar do processo educativo.
Mas não podemos esquecer que apesar de toda nossa dedicação e cuidado nossos filhos farão suas escolhas, muitas delas geradoras de conflitos, desarranjos e sofrimentos. Nesse momento é muito comum que os pais batam no peito e digam: “minha culpa, minha máxima culpa”. Diante dessa situação, no entanto, é necessário que os pais tenham sensibilidade para entender que o que eles vêem como fracasso num primeiro momento, na verdade pode lhes servir como uma espécie de bússola: para orientá-los, para fazê-los reconsiderar seu modo de educar, suas prioridades, seus projetos de vida; filhos são um verdadeiro convite a mudanças. Mas, infelizmente, nem todos os pais percebem e aceitam esse convite e continuam a perpetuar-se em suas certezas e convicções. Uma coisa é certa: as escolhas dos nossos filhos dizem respeito sim, às nossas escolhas como pais, não por culpa, mas por responsabilidade.
quinta-feira, 30 de abril de 2009
Porque todos amam Susan Boyle?
A personagem da semana certamente foi Susan Boyle. Uma mulher de meia idade e sem nenhum atributo que atenda ao nosso padrão de beleza atual, que apareceu na TV vestida com um modelito estranho e sem graça e ganhou o mundo. Em termos mais chulos diríamos que Susan é uma mulher feia, matuta e desengonçada, uma das concorrentes a se apresentar em um programa de calouros inglês há duas semanas. Inicialmente, Susan é vista com desprezo e ironia pelos jurados e pela platéia, mas bastaram os primeiros 10 segundos de sua performance como cantora para ser ovacionada. Desde então, Susan se tornou um fenômeno. Sua apresentação foi uma das mais acessadas na internet nas últimas semanas e virou notícia em inúmeros jornais e emissoras de TV, aqui e em todo o mundo. Um site brasileiro mantinha em sua página inicial a seguinte pergunta: “Porque todos amam Susan Boyle?” É difícil responder a esta pergunta e talvez não haja apenas uma resposta, mas a surpresa e o desconcerto que Susan nos provoca, seguramente estão entre as explicações a respeito dessa questão. Uma das juradas do programa, antes de dar a Susan o seu “sim”, afirma: “O que aconteceu aqui é um alerta para todos nós.” Sim, acredito que o “fenômeno Susan” seja um alerta para todos nós, um alerta sobre o quanto nos deixamos levar pelas aparências, diz respeito ao quanto nos avaliamos e avaliamos os outros pela imagem. Susan tem, é claro, uma voz belíssima e poderosa e sua música, cantada com a alma de uma estrela, emociona, arranca lágrimas e êxtase. Entretanto, acredito que o que mais toca as pessoas que assistiram e assistem Susan, seja a soma disso tudo que já foi dito com a total nudez dessa mulher no palco. Sim, Susan aparece nua, muito mais nua que aquelas mulheres que ficam penduradas nas bancas de jornal – meros arremedos retocados de mulher. Há muito não víamos – pelo menos na mídia – uma mulher tão nua e autêntica quanto Susan. Sem retoques, sem maquiagem, sem “banho de loja”; sem artifício algum para conquistar os jurados e a platéia através sua estampa. Susan chega nua ao palco e, sem nenhum pudor canta, mostrando ao mundo sua autêntica beleza. Acredito ser essa a grande novidade que Susan mostra e que nos faz amá-la. Talvez estejamos cansados de tanta gente com cara de estampa de revista feminina: gente retocada demais, ajeitada demais, esticada demais, arrumada demais, formatada demais e humana de menos. Mas, estando no mundo em que vivemos é de se esperar que uma das primeiras perguntas feitas a Susan depois da fama repentina seja esta: “Você mudará sua aparência?” E ela responde: “Porque deveria mudar?” Mas, dias depois a manchete é a seguinte: “Susan Boyle muda de visual após fama.” E eu penso comigo: “Que pena! Eles não entenderam nada.”
segunda-feira, 13 de abril de 2009
Resposta à coluna de Ferreira Gullar na Folha de São Paulo
Prezado Ferreira Gullar
Certa vez você escreveu assim:
Traduzir-se
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?
Quero acreditar que quem escreveu a coluna deste domingo de páscoa tenha sido apenas uma parte de você. Uma parte que não conhece os enormes avanços que a Reforma Psiquiátrica Brasileira e a lei (à qual você se refere como idiota), puderam fazer na vida e na história dos milhares de familiares e usuários com os quais lidamos no nosso dia-a-dia de trabalhadores da Saúde Mental. Antes desta lei - que não foi daquelas que surgiu de traz da orelha de um cretino qualquer, mas resultado de um processo de mais de 10 anos de discussão, luta, enfrentamentos e negociações - familiares e pacientes tinham no manicômio único modo de ter e oferecer "tratamento" para suas loucuras ou doenças mentais. A mesma parte que desconhece que existem sim em nosso País e em outros: manicômios - com este nome ou com outros mais amenos - que continuam a ferir direitos mínimos aos seus "frequentadores", manicômios que ainda mantêm pessoas encarceradas por 20, 30 ou mais anos, condenadas à reclusão simplesmente pelo fato de serem doentes mentais.
Não quero acreditar que um poeta sensível como você consiga enxergar na doença de seus filhos somente pessoas dispostas a matar ou morrer quando estão em crise, outra parte de você, certamente, conhece muitas outras facetas e singularidades que só quem convive de perto com a esquizofrenia ou outras doenças mentais pode experimentar. Por isso minha carta é um convite... um convite para que você escute a outra parte de si mesmo e desta história que você conta de maneira rasteira e parcial, uma história que tem lá suas dificuldades e imperfeiçoes (e bem sabe você que num mundo perfeito não haveriam poetas) mas é uma história bonita e legítima e que merece no mínimo respeito. Convido outra parte de você a conhecer um CAPS (ou serviço deste tipo) e escutar o depoimento de usuários e familiares que lá frequentam, e que puderam mudar suas histórias por causa das transformações que esta lei provocou em suas vidas. Uma parte de você também não sabe que a hospitalização, de qualquer natureza, não é mais a única solução para as chamadas crises, existe muito mais a ser fazer...Outra parte de você também ficaria encantado em saber que esta lei contruiu muito mais coisas do que descontruiu, descontruiu os manicômios, mas construiu um sem número de outras possibilidades, dispositivos, formas de tratamento, além de muita arte, música e poesia...Creio sinceramente que quem escreveu este artigo é a parte de você que ainda não conheceu a outra parte da história...então venha conhecê-la, tenho certeza de que nenhuma parte de você irá se arrepender.
saudações antimanicomiais
Rita de Cássia de A. Almeida
Juiz de Fora/MG
trabalhadora de CAPS e militante da reforma psiquiátrica brasileira há 12 anos.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Qual é a parte que nos cabe?
Ao final de cada eleição toma conta de nós uma grata sensação de dever cumprido, no entanto, é preciso que tenhamos cuidado para não confundir “dever cumprido” com “lavar as mãos”. Lavamos as mãos quando acreditamos que votar é simplesmente passar adiante a responsabilidade do cuidado de nossa cidade para os eleitos: prefeito, vice-prefeito, vereadoras e vereadores. Lavamos as mãos quando votamos no intento de escolher algumas pessoas que resolverão por nós os problemas de nossa cidade, de nossa comunidade ou, o que é ainda pior, nossos problemas pessoais. Lavamos as mãos quando nos damos o direito de “deitar em berço esplendido” e dormir até as próximas eleições, apenas esperando que “os eleitos” exerçam competente e eticamente suas funções. Lavamos as mãos quando criticamos os atos do prefeito eleito com as sábias palavras: “-Ainda bem que eu não votei nele!”, como se isso fizesse diferença.
A nossa ex-ministra do meio-ambiente Marina Silva, em entrevista coletiva após pedir demissão do cargo, disse uma coisa que me ensinou muito sobre a democracia. Ela disse que em qualquer sistema de gestão, seja ele público ou privado, é muito fácil governar “para as pessoas” ou “pelas pessoas”, o grande desafio é, no entanto, governar “com as pessoas”. Esta experiência que ela cita qualquer pai ou mãe de família conhece muito bem, afinal é muito mais fácil e rápido resolver uma situação familiar qualquer dizendo assim: “- Vai ser deste jeito, porque eu decidi assim e pronto”. O difícil é, por outro lado, reunir a família, permitir que todos sejam ouvidos e construir coletivamente uma decisão, que ainda sim, provavelmente não agradará a todos. Aprendemos com isso que um sistema democrático não pode se pretender fácil, rápido ou isento de conflitos, o que implica em concordarmos com a nossa saudosa ex-ministra: governar “com as pessoas” é difícil, dá muito trabalho. Este tem sido o desafio dos governos democráticos, desafio que se impõe não apenas para o gestor, mas especialmente, para aqueles que estarão partilhando “com o gestor” a responsabilidade, o ônus e o bônus, de cada decisão, ou seja, cada um de nós. Sendo assim, voto não é um presente que damos a alguém, é uma aliança de compromisso que nos une por quatro anos àqueles que coletivamente elegemos.
Enfim, as eleições, ao contrário do que às vezes somos tentados a considerar, não encerram nada, elas abrem o início de um novo ciclo. Sendo assim, desejo que o pensamento que nos venha, terminado mais um pleito municipal, não seja o: “Ufa! Acabou!” mas sim o: “Que bom que poderemos recomeçar!”. Recomeçar uma nova fase, uma nova gestão municipal, que não pode de maneira nenhuma ficar nas mãos do prefeito eleito e de mais uma meia dúzia de escolhidos (e cabe a nós vigiarmos para que isso não aconteça). Ninguém foi mais perfeito para descrever este momento pós-eleição do que um amigo, nas suas sabias palavras resumiu todo este artigo me mandando um e-mail assim: “Agora é hora de segurar o andor, senão o santo cai mesmo.”